...foi então que me disseram: VÁ POR AÍ...engana-se quem pensa que um imperativo assim dito sem que se o diga a luz do sol seja na segunda pessoa. Quem ordena ainda que em máscaras de verbo, vocábulos que soam a falo empunhado ou, em aureas místicas com ameças superticiosas de morte oriundas de um pai totémico - dí-lo de modo anómico. Mas, desgraçadamente, como um louco ou como um artísta ou como um marginal (há quem diga tanto faz!) eu respondi NÃO! como quem nega a mais generosa e pomposa oferta de um diabo qualquer. Pois há muitos deles. Não sei se sou operário mas disse não. A estrada parecia óbvia em todos os sentidos, estava bem sinalizada e, como toda a oferta que se sabe bem oferecer tinha, em geito de mercadoria paraguaia, o tempero do engodo. Disse não. E dito doidamente isto segui então pelas trilhas, tor uosas e imprevisiveis VEREDAS...estas são sempre humanizadas porque começam pelos pés de um homem ou, quem sabe até de um cão, pois que estes, muitas vezes são melhores que certas pessoas, que não chegam a ser Homens (fabricados da matéria-prima ÉTICA, a única apartir da qual as pessoas se podem fabricar Homens), mas que bem poderiam sê-lo...vi paisagens deslumbrantes, senti o cheiro fascinante do mato e do barro, que estranhamente não lembravam a morte, tive sombra e sol escaldante, e água fresca e garganta ressequida, encontrei amigos aventureiros e tive sorrisos e abraços...mas também inalei o cheiro da podridão e intui o sentido da vida...amanhã, de novo, direi NÃO!
quinta-feira, 1 de julho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
"Minguarda"*
antes...
não é o passado e não é o tempo mítico...este que tanto nos falta por aqui - "nós" hipnotizados por um falso realismo como se houvesse uma realidade universal - "nós" que mal percebemos que as construções humanas são do ambito do "mundo individual" e o resto, que não é resto, porque é tão necessário como as nossas construções e subjectivações, são pontes que nos levam a esse outro: nosso irmão (porque "filho da mesma natureza"...). O caldo de "tudo isso" deve nos humanizar se a isso nos acedermos...
...antes é a nossa infância e veja que não dizemos "era" porque toda a infância que não se perpetua nos estrangula...
minguarda...
naquele templo...depois de uma dupla corrida de 6 km, a primeira mais amena (não obstante o desconforto de acordar de madrugada), com alguma distraçcão pelo meio a pretexto de cromos, revistas de quadradinhos, os primeiros salpicos de namoros e muita má vontade dos "grandes" que, mesmo com a "juvita" vazia nos negavam a "boleia", as cabras tinham que beber. Isso a hora da "minguarda". Era assim que, com muito cansaço e o "natural" receio das pedras misteriosas que nos poderiam acertar a cuca passavamos desabridos em baixo das árvores com os baldes de água fresca, que vazavam com o balanço do andar e da corrida desajeitada...
o poema...
...a voz ritmada do meu pai ao meio-do-dia recontando as infindáveis estórias do vale, da ilha e do mundo é um acalento... essa mesma voz outrora severa hoje repleto de serenidade e de afetco nos faz adormecer: a mim e a ele...do fundo da colcha onírica embalado pela fresca brisa (sempre presente naquele corredor) adivinho o sorriso vigilante a um tempo afectivo e trocista da minha mãe...
....
"Os pássaros haviam partido para o sul e a brisa ao meio-dia já era um rio. Um inconstante e nostálgico rio. Dormiam as almas dos homens a seu tempo. Pudessem as almas dos homens serem brancas como os pássaros ao meio-dia. Um invisível e cristalino rio percorria em silêncio a alma do vale. O riacho cristalino percorria com seu cântico exagerado a sinuosa alma do vale. O riacho-alma do vale em breve seria ausêcia aos olhos dos homens ao meio-dia. A anciã não anunciava mas descrevia as profecias à alma dos homens. Os homens de olhos grandes (que não eram verdes como as da anciã) anuiam às suas palavras tácitas. Uma bela moça com uma afiada foice, delicadamente, oferecia a morte aos sinuosos homens do vale. Não era a foice propriamente o fantasma que o medo dos homens pintava ao meio-dia. Era apenas uma foice que se oferecia à alma dos homens. Delicadamente lhe agradecíamos. Nos bastava apenas o branco e passageiro sono (como a alma sinuosa dos brancos pássaros). Hoje. Ao meio dia." OL
minguarda...
naquele templo...depois de uma dupla corrida de 6 km, a primeira mais amena (não obstante o desconforto de acordar de madrugada), com alguma distraçcão pelo meio a pretexto de cromos, revistas de quadradinhos, os primeiros salpicos de namoros e muita má vontade dos "grandes" que, mesmo com a "juvita" vazia nos negavam a "boleia", as cabras tinham que beber. Isso a hora da "minguarda". Era assim que, com muito cansaço e o "natural" receio das pedras misteriosas que nos poderiam acertar a cuca passavamos desabridos em baixo das árvores com os baldes de água fresca, que vazavam com o balanço do andar e da corrida desajeitada...
o poema...
...a voz ritmada do meu pai ao meio-do-dia recontando as infindáveis estórias do vale, da ilha e do mundo é um acalento... essa mesma voz outrora severa hoje repleto de serenidade e de afetco nos faz adormecer: a mim e a ele...do fundo da colcha onírica embalado pela fresca brisa (sempre presente naquele corredor) adivinho o sorriso vigilante a um tempo afectivo e trocista da minha mãe...
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"Os pássaros haviam partido para o sul e a brisa ao meio-dia já era um rio. Um inconstante e nostálgico rio. Dormiam as almas dos homens a seu tempo. Pudessem as almas dos homens serem brancas como os pássaros ao meio-dia. Um invisível e cristalino rio percorria em silêncio a alma do vale. O riacho cristalino percorria com seu cântico exagerado a sinuosa alma do vale. O riacho-alma do vale em breve seria ausêcia aos olhos dos homens ao meio-dia. A anciã não anunciava mas descrevia as profecias à alma dos homens. Os homens de olhos grandes (que não eram verdes como as da anciã) anuiam às suas palavras tácitas. Uma bela moça com uma afiada foice, delicadamente, oferecia a morte aos sinuosos homens do vale. Não era a foice propriamente o fantasma que o medo dos homens pintava ao meio-dia. Era apenas uma foice que se oferecia à alma dos homens. Delicadamente lhe agradecíamos. Nos bastava apenas o branco e passageiro sono (como a alma sinuosa dos brancos pássaros). Hoje. Ao meio dia." OL
* Figura "mitológica" da ilha de Santo Antão, uma espécie de fantasma que habita as árvores e apedreja as pessoas ao meio do dia.
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