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sexta-feira, 17 de junho de 2011

EUTANÁSIA: A SAGA DO CINEMA EM CABO VERDE



A morte por eutanásia do Cinema Eden Park ainda vai dar pano para muitos e múltiplos discursos. Será inequivocamente mote de cobrança e condenação das gerações futuras, em relação a nossa ignorância no presente. Ignorância essa que resulta não da nossa 'baixeza' de QI, mas da escassez de senso e, da consequente 'miopia'. Andamos essas décadas pós-independência a peneirar a farinha para comer o farelo,  não por acção directa do povo, que é inteligente e batalhador mas, pela nossa incapacidade de construir lideranças positivas no domínio da gestão pública. Sobrou-nos o pudor em relação a participação política e a intervenção cívica e, uma elite 'política' francamente miserável em termos de conteúdo intelectual e de paradigmas. Sobrou-nos os "prados", maioritariamente cinzentos a imitar o cinzento das nossas urbes, ambos consumidos de modo alienado e patético e, os gangs e taxistas a aterrorizar as pessoas, pela sua impossibilidade de comunicação e de produções positivas. Infelizmente, ainda há muitos ignorantes que têm a certeza que é pelo estômago que o ser humano sobrevive,  enquanto o que nos empurram guela abaixo é aço, betão e alcatrão. Mas, morre-se de fome. Fome de nutrientes 'no céu da boca' e no âmago da (in)existência.

Mas, a eutanásia do Eden Park é a ponta do iceberg do acto ignotrante de apagar um século de história do cinema em Cabo Verde, incluindo todo o património imaterial que se construiu a sua volta. Uma história que acampanhou em tempo real o nascimento do cinema no mundo, com os irmãos Lumière, seu cinematógrafo e respectiva  fábrica de onde se engendrou um projector que mal saia da cabeça de 'um engenheiro' já estava em Mindelo.

Depois da batalha inglória dos mindelenses, que mais pareceu um pesadelo, pois ninguém viu seus acenos desesperados, é pelo olhar do cineasta portugês Daniel Blaufuks que essa morte mais uma de múltiplas vezes nos entra na alma. http://noticias.sapo.cv/vida/noticias/artigo/1153386.html.

Blaufuks já ganha prémios com 'seu olhar' sobre essa "memória em vias de desaparecimento", como ele mesmo sentencia. Vale a pela dar uma espreitadela no trailler, no link em cima.

OL

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Veredas da Arte

Por uma nova era...


A Cidade da Praia parece definitivamente ter superado o desalento da ausência de eventos culturais. Em 2010 produções  de  diferentes áreas foram se sucedendo...que nos anos que vêm pela frente essa dinâmica se intensifica, se diverisfica e se enriquece, independentemente de haver ou não políticas públicas para o sector. Que sejam os produtores e os fuidores das artes e da cultura em geral os motores de um "novo momento" na história deste país. Se os "políticos" preferem instalar-se confortavelmente na ignorância (entenda-se burrice)  a respeito do verdadeiro papel da cultura na vida e na evolução desta sociedade "que o diabo os carregue"!

...ontem fomos conferir o lançamento do primeiro livro do Abrão Vicente, tendo como pano de fundo o sorriso bricalhão do Princezito e a leitura teatralizada de trechos do "Trampolim" pela voz de homens e mulheres. Não faltou uma taça de um bom tinto, é claro. O pouco que  ouvi e dos extractos que li  nasceu uma grande empatia, a priori, com essa obra. Há muito que a produção literária cabo-verdiana reclama por novos rumos, por criações na verdadeira acepção da palavra. A mim me tem aborrecido o status quo, a monotonia que se vai verificando na nossa prosa e   poesia. Precisamos de um Raduan Nassar e de um Carlos Drummond de Andrade para nós. Criadores que rompam com um ciclo que foi bom e enriquecedor mas, que já cumpriu o seu papel social. Arte é inovação, é a criação de novas formas, é ruptura.

Apesar da humildade com que Abrão Vicente encara o seu "Trampolim" faço votos que seja ele o nosso Raduan Nassar e, se não for, que seja o catalizador de uma "nova era" na nossa produção literária. Que o "Trampolim" cumpra seu papel de catapultar o autor para outras altitudes (de criatividade) e que sirva de estímulo para estilhaçar a timidez de criadores em potencial, que estão por aí ocultos na multidão. Para o Abrão que esse primeiro seja o primeiro de muitos...

OL