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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

ATELIÊ DE GAIA

Veredas da Saúde

Veredas da Saúde Mental, que estranhamente relutamos em trilhar, enquanto reduzimos a EXISTÊNCIA HUMANA a  frivolidade de sinapses e neurotransmissores! Eis um dos muitos exemplos que o Brasil e outros paises da América Latina podem nos proporcionar.

Esta experiência da Colónia Juliano Moreira se soma à outras como aquelas lideradas pela Nise da Silveira (www.museuimagensdoinconsciente.org.br) através da qual revolucionou preceitos e paradigmas sobre a loucura/sanidade mental, e abriu brechas para que artistas como Emigdyo de Barros, Raphael Domingues, Fernando Diniz e tantos outros desenvolvessem e revelassem suas potecialidades ao revés da incómoda veste de loucos.

Ao contrário da ladainha "saúde é um estado de bem-estar físico, mental e social..." preconizada pela OMS e repetida sistematica e inadvertidamente por todos nós, a saúde é um processo dinâmico e dialéctico não se reduzindo a essa pretensa condição de "estado", muito menos aos extremos saúde e doença. E, tem no seu âmago  componentes sociais muito mais preponderantes do que aqueles que admitmos. Quando se trata da saúde mental a componente política e família, no sentido do jogo de poderes é muito forte. As componentes fisiológica, constitucional, psicomotor, etc. são relevantes mas, reduzir a saude à um biologismo mecânico é uma grande trapaça. Infelizmente protagonizada e defendida por muitos "técnicos" da saúde, incluindo os nossos.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Veredas da Poesia



A contra-face do olhar

plena ciência
da inconsútil beleza
têm a moça e o espelho!

o que o homem
desconhece
é que numa noite de luar
(em mar aberto)
onde se contempla
mais o pensamento
que a paisagem
nasceu uma lágrima!
OL

Veredas da Poesia




Pré-tempo 

Um cintilante cesto de fibras entrelaçadas, inacabado, sem fundo. Imanescente no fundo do nada. Era o tempo orgástico: um fim infinito antes do próprio fim. No apelo pacífico o leito de névoa. Por vago instante, no avesso da retina a inequívoca imagem de róseos seios e curvilíneos triângulos, em voláteis garfos se desfez. Nasceu o poeta. Depois…foram somente madrugadas. E luas. Nada mais.
OL

Veredas da Poesia

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Expectativa


Fonte da Imagem: http://www.milfotos.org/images/493d7da0a0a8ab358676a441a9b998d4.jpg

Estou e penso que muitos estarão também a espera, do dia em que instituições como a TACV, a Electra, os Serviços de Registos e Notariado, muitos serviços públicos e privados e tantos outros nos dirão frontalmente, em palavras, aquilo que nos dizem diariamente em atitudes.

Pode parecer simples ironia mas é muito mais do que isso. Eu ficaria muito satisfeito. Daria uma bela risada e, em seguida tomaria o rumo de um desses lugares agradáveis, quase idílicos, que me servem de “refúgio para renascimento”- como Rui Vaz, Ponta do Sol, Ribeira da Torre, Monte Verde, Fajã d’Água, Chã das Caldeiras…- no dia em que essas instituições me disserem literalmente, em explícitas palavras:

- “sabe uma coisa, olavo (assim mesmo, com letra minúscula), vá à merda, vá para o diabo que te carregue porque estamos nas tintas para as tuas pretensões de direitos ou de seja lá o que for”.

Convenhamos. Todos os anos é a mesmíssima coisa. Centenas de pessoas, incluído os benditos emigrantes se acotovelam e se humilham pedinchando um lugar para viajar de avião em Cabo Verde. Imagino que num “lógica de procura e oferta” muitos até pagariam um valor inflacionado para essas benditas viagens. No entanto, a administração dos TACV que no ano 1990 já sabia que em 2010 não conseguiria dar vazão ao transporte de passageiros no verão e no fim de ano, nada fez e nada fará para “gerir” essa e outras situações.

Queria viajar não pude. Muitos queriam, querem e não poderão. Outros insistem, activam as “conections”, encetam uma ida e vinda dos aeroportos até conseguirem, que seja um dos lugares “free” de um “tacevista” que acordou com aquela maldita ressaca e preferiu continuar no maldito conforto do leito.

Porem, usando ou não os serviços a grande verdade é que a factura será sempre e necessariamente paga. Porque as empresas públicas estão nas tintas para a treta da gestão, porque o cofre do estado estará sempre de pernas abertas, qual incauta “pexinguinha” para as acolher. O pequeno detalhe é que o “cofre do estado” é exactamente “eu e tu” que essas mesmas “empresas” mandam indevidamente (porque não o fazem de modo explicito) para o inferno.

A Electra e muitas outras me espoliam, me extorquem, me insultam com os piores atitudes que se pode dirigir a um inconveniente insecto, violam frontalmente leis e direitos, me agridem e depois me cobram a factura a moda do velho “gangster” americano. Me cercam, me torcem os ossos e os músculos, me apontam a arma à têmpora e me enfiam as mãos no bolso ou sabe Deus lá onde. O estado, a mãe pátria que mais parece a “mãe tigre” de pé como alcoviteira apenas observa, escarnece e aprende para o dia em que, também, directa ou indirectamente me extorquirá. Depois vai ao “cofre” e enfia a mão a moda de um urologista sádico, ignorando a minha dor e me obriga a pagar pela enésima vez a mesmíssima factura.     

…e se por um acaso, por um mero defeito da minha constituição físiológica, o amargo fígado me doer existirá sempre a disposição para "livre escolha" (palavras de um ministro) um cálice de “metanol” disfarçado de “grogue de Santo Antão” para me consolar, até que, finalmente, chegue aquela bendita frase redentora que tão ansiosamente aguardo!
OL

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O homem de olhos pequenos


“Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume”(…)
                                             O Ciúme Caetano Veloso

                                                                                                                              Persistência da Memória
                                                                                                                              Salvador Dali, 1931

Pouco antes das sete da manhã lá estava ele, solitariamente pousado do lado da sua mochila de merenda. Pelo matutino e pela postura digna tinha pose de patrão. Não sei porquê mas via tristeza naquela cena. Adivinhei seus olhos pequenos com um misto de candura e de tristeza. Os meus se encheram de lágrimas…mergulhei fundo nos poucos fragmentos da história que me relatara naquele dia, enquanto arrumávamos os objectos no carro. Falou da morte da sua primeira esposa, de seus filhos, da sua casa clandestina, de como comprou e perdeu o terreno e de como voltou a recuperá-lo com muita luta e com a ajuda de um líder político, um “doutor”. “Imagina, dissera ele, paguei caro. Na altura custou-me cem mil escudos, cem mil escudos! Mas hoje, graças a Deus não pago renda”.

Aos sessenta anos de idade ele se apresentou no meu gabinete para assinar o seu primeiro contrato de trabalho. Trabalhara desde a adolescência, é claro. Deixou para trás a sua ilha do Fogo para habitar uma das muitas encostas da Cidade da Praia. Criou os filhos, adquiriu seu terreno no sector dominante da imobiliária clandestina da cidade, alojou e cuidou da sua família e, pela primeira vez, aos sessenta anos, assinara um contrato formal de trabalho e fora inscrito no sistema de segurança social. O brilho nos seus olhos era de vitória.

Conquista, progressão, realização. Que vitória poderia glorificar um homem que faz uma carreira completa de servente de construção civil ,com um salário obviamente miserável? Perguntava no meu íntimo. Porém, meus pensamentos são meros subprodutos das minhas idiossincrasias e nunca poderão explicar a hipotética alegria que vira na simplicidade do rosto daquele homem. Lembrei-me das mãos calejadas do meu amigo e vizinho de Santo Antão naquele café, no centro de Luxemburgo, e dos seus mil e quinhentos euros mensais, mas tratei logo de afastar para os recônditos da minha maldita mente aquela memória, para salvar meu dia.  Afinal, antes de tudo está lá a DGCI a nossa espera e espreita e, isso é o primordial.

Desculpem-me a expressão incontornável mas, a “grande merda” é que no dia seguinte a paquete veio me informar, cerimoniosamente, que só emitiam o NIF daqueles operários mediante a apresentação, também, dos seus números de telefone e que não necessariamente teria que ser um número fixo, que poderia ser o TM. Perante meu silêncio e indiferença ela fez meia volta e saiu…

Cinco meses depois, a nota que redigi a seguir ainda está na minha gaveta…

terça-feira, 20 de julho de 2010

Estamos em festa...

Origem da Imagem:


Custa-me entrar no sono regenerador com tanto ruído na noite, que deveria ser “calada” mas não é. O que efectivamente estará “calado” há de ser o código de postura e alguns “homens” que deveriam ser autoridades mas não são. Os ruídos oscilam entre uma “música”(?) tão psicótica quanto suas motivações e usos e, o ricochete dos tiros de “boca-bédjo”.

Porque festejamos tanto? Comemoramos? O quê?

Confesso que adoro uma bela festa. Ou, talvez, seja “os efeitos paraíso perdido” do tempo em que as festas eram sinónimos de convivência e de amizade.

Em todos os bairros miseráveis acontecem dezenas de festas mensalmente. Pessoas, principalmente do sexo masculino, queimam suas energias noite dentro ingerindo quantidades absurdas de álcool da pior qualidade, castigam os benditos tímpanos com uma carga intolerável de decibéis, brigam e se agridem por motivos banais. Ou, na melhor das hipóteses prometem carinhosamente facadas e morte sangrenta uns aos outros. Tudo isso a ser pago por todos nós: no tratamento de alcoólatras, de toxicodependentes, de tumores do sistema digestivo, de hipertensos, de ferimentos e deficiências, no cuidado aos órfãos…

A dança que já foi um meio agradável de expressão corporal, de sensualidade e de sedução foi transformada numa simulação banal e psicótica de actos sexuais. Sim porque sexo é sexo, dança é dança, cada um com seu tempo e seu lugar. Me considero uma pessoa de mente aberta. Aceitaria de bom grado casas nocturnas de streep teese, de sexo ao vivo, de prostituição e outros, dentro de regras previamente estabelecidas, que respeitassem as opções e os valores de todos. Porem, o “esfrega esfrega” mecânico que as pessoas se impõem é, em geral, totalmente destituído de qualquer investimento sexual, no verdadeiro sentido do termo, mormente de investimento afectivo, que é o substrato das relações humanas. Em primeiro lugar porque é um padrão de atitudes alienado, em segundo porque bloqueia a convivência descontraída entre as pessoas numa suposta festa e, em terceiro, por ser um modismo leviano, que como todo o modismo fixa padrões de comportamento em pessoas que supostamente pensam e agem de modos diferentes.

Origem da Imagem:


Comemoramos o quê?

A erradicação do “catch body”, da dengue, do desemprego? Comemoramos o exercício da cidadania com a observação mínima dos direitos consagrados na “Declaração Universal dos Direitos do Homem” e na “Constituição de Cabo Verde”?

No ano 2000, ano em que supostamente o mundo deveria acabar, quando abandonei as asas protectoras dos meus familiares e quis ser um “técnico” abandonei estrategicamente, também, as paredes da instituição em que trabalhava. Deixei no “gabinete” a alvura do “jaleco” e me aventurei pelos becos tortuosos dos subúrbios de Mindelo. Senti o bafo pestilento de cubículos, me cozinhei em casas de latão, com pó de todas as cores “pintei” minha bela colecção de sapatos adquiridos a dedo no centro cosmopolita de São Paulo, olhei fixamente nos olhos incrédulos das pessoas que viam em mim mais “um demagogo”, um “doutor”, um “institucionalizador”, vi suas panelas milenares vazias e a cinza antiga nos seus fogões a lenha e no botijão de gás vazio, me ajoelhei sobre meu “blue jeans” e minha camisa branca se deitou no chão infestado para falar com pessoas em buracos improváveis, sob botes, sob chapas de tambor e sobre “cómodos inimagináveis”.

Descobri por casmurrice um outro Cabo Verde que convenientemente não me tinham apresentado. Pois, em nada se parecia com Praça Nova, Pimps(?), High Step(?), Je t’aime…Em nada se parecia com a minha cama macia, com a mesa interminável do café da minha mãe, em nada se parecia com as férias idílicas de verão e com a maciez perfumada e sorridente das meninas que me encantavam.

Dez anos depois faço questão de passear lentamente pelos subúrbios da Praia. Sem missão nenhuma e sem idealismo. Olho para as pessoas, suas casas, suas ruelas e becos, seus contentores transbordantes, olho para seus olhos, olho para a combinação meninos & cachorros & lixo & moscas & miséria. Olho, e é sempre o mesmo espanto. O mesmíssimo espanto. A mesma revolta. É então, que do fundo silencioso dos anos a voz da professora Marina repete para meus olhos atentos (mais por curiosidade que por ofício de estudante): “enquanto numa sociedade houver uma pessoa que seja que não tenha os seus direitos respeitados, nessa mesma sociedade não haverá nem democracia, nem exercício de direitos, para absolutamente ninguém”.

Comemoramos o quê? 
OL