Uma aventura cansativa mas agradável, uma jornada de 12 horas seguidas de trabalho. Trata-se do inicio da produção de um guião/roteiro de um documentário do director Estevão Filimão, o qual tive a honra de ser o produtor local. Um projecto que ainda anda...virá mais...por enquanto ficam as fotografias do making off. A equipa é formada por ex-alunos do curso de especialização em cinema, do M_EIA, Escola Internacional de Artes, de Mindelo.
...actualmente quando vou à Santo Antão passeio pelas montanhas e veredas em jeito de refúgio e de regeneração. Por vezes, resgato memórias e impressões, um pouco nostálgicas, inscritas em mim e na familiaridade das paisagens. Memórias de uma infância e juventude felizes e vividas em liberdade e comunhão com a natureza...
...o latido distante de um cão, o cumprimento ao longe de duas mulheres, o berro breve de um cabrito, o som opaco de uma enxada em luta com a terra ressequida, o rugido monótono de um motor, a água caindo algures, o voo breve de um insecto, a imprevisível brisa nas folhas do canavial podem ser o pano de fundo de uma introspecção quase imperceptível, uma espécie de vivência onírica...de repente o olhar encontra-se com cores e contrastes. Demora-se...retiro do bolso do short a maquineta do "tipo apontar e disparar" que agora substitui a velha Pentax Asahi e registo um momento de intimidade, de quase nudez... que agora começo a partilhar!
Um cintilante cesto de fibras entrelaçadas, inacabado, sem fundo. Imanescente no fundo do nada. Era o tempo orgástico: um fim infinito antes do próprio fim. No apelo pacífico o leito de névoa. Por vago instante, no avesso da retina a inequívoca imagem de róseos seios e curvilíneos triângulos, em voláteis garfos se desfez. Nasceu o poeta. Depois…foram somente madrugadas. E luas. Nada mais.
Man Ray(1890/1976): Fotógrafo, Pintor, Escultor, Cineasta
Prometi a um amigo, apaixonado pela fotografia, que lhe falaria de Man Ray, um vanguardista das belas artes em geral e, da fotografia artística em particular. "Cravei" a descoberta apaixonante de Man Ray nessas veredas andarilhas dos “rodapés”, a pretexto de fuga dessa apatia cultural que força muitos caboverdianos a viverem e morrerem como se o mundo nada mais tivesse produzido para além de carros e betão.
Preto e Branco, 1926 Man Ray
6 3/4 x 8 7/8" (17.1 x 22.5 cm)
Museu de Arte Moderna, Nova Iorque
Man Ray nasceu na Filadélfia em 1890 e morreu em Paris em 1976. Emmanuel Radnitsky abandonou a escola convencional e as directrizes da família, na adolescência, para se dedicar à pintura e a escultura. Marcou essa ruptura com a adopção de um novo nome: Man Ray.
Tapeçaia Man Ray
Vanguardista, inquieto, inconformado e de espírito livre Man Ray encontrou no francês Marcel Duchamp, precursor do “Dadaismo”, um parceiro de trabalho e um grande amigo. Com este fundou o grupo Dadá de Nova Iorque. Não tendo sua obra sido aceita nesta cidade ruma para Paris em 1921. Ali junta-se também ao movimento surrealista. Porém, o “alinhamento” de Man Ray é mais uma busca instintiva de oportunidade de inovação, de ruptura e de criação do que propriamente um frenesi intelectual pelos “ismos” da arte.
Em Paris conviveu e trabalhou com artistas como Pablo Picasso, Salvador Dali, Max Ernst, James Joyce (escritor), Andre Breton (filósofo), Gabrielle Buffet-Picabia (que conheceu em Nova Iorque junto com Duchamp) e tantos outros em quem encontrou o mesmo espírito libertário, identificando-se e potenciando a grande obra que nos haveria de legar.
A prece, 1930
Man Ray 9 7/16 x 7 1/8 Museu J. PaulGetty, Los Angeles
Artista multifacetado, Man Ray dedicou-se a pintura, escultura, fotografia e cinema. Porém, é a fotografia definitivamente a sua grande paixão, o meio que melhor lhe serviu para expressar-se. Escancarou as portas para a aceitação da fotografia como uma forma de expressão artística, explorou métodos e técnicas e inaugurou a fotografia contemporânea. Para além da fotografia como meio de expressão eminentemente artística fez trabalhos comerciais para o sector da moda e fotografou artistas famosos e personalidades com que se privou. Em 1940 regressou aos Estados Unidos para fugir da guerra. Viveu 10 anos em Hollywood onde deu aulas de pintura e fotografia. Voltou a Paris Em 1951 e ali permaneceu até a morte.
Interior, 1932 11 3/4 x 8 13/16 Museu J. Paul Getty, Los Angeles
A obra desse desbravador irreverente é incontornável para a arte moderna e para a nossa cultura visual. Aliás, toda a produção fotográfica moderna está contaminada pelo olhar desse homem.