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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Veredas da Poesia

                                                                                   Autor: Thorsten Jankouwski

Lambedores de Alupec

agrimensores de palavras
de dialectos…
intelectuadores do desejo

o crioulo
é apenas mulato
língua é aquela que sorve
e lambe a moda de drummond*
que também é crioulo
que se chupa se esforço se fizer
se desejo houver
de facto preferir por preferir
prefiro as portuguesas
de todas as nações…
o português é coisa do intelecto
com que leio
com que expresso
em poesia em prosa…

amor não faço
porque também sou crioulo
faço coisa outra com a mulata
coisa que em português
não se diz
por escassez de vocábulo
mas como mulato crioulo
faço com prazer com a língua!
mas não escrevo apenas faço…
digam vocês com C ou com K

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Carta à Deus

Origem da imagem: photosfolies.7canalblogc.com

Prezado Senhor Deus,

Dirijo esta  missiva à vossa senhoria com toda humildade e respeito requeridos à um subalterno. O motivo a ela subjacente é um intermédio entre desabafo e reclamação. Vossa senhoria há de me perdoar de antemão tamanha ousadia. Porém, a abolição da figura paterna nestas ilhotas transformou em bagaço, em fantoche e, em outros adjectivos que não ouso pronunciar temendo a vossa justa reprimenda, aquilo que seria a autoridade. Vós que sois autoridade suprema entendeis o caos gerado por uma tal ausência, o qual vai da anarquia à incivilidade. Então, não me resta outra alternativa se não dirigir-me a si.

Porem, não pretendo vos maçar com rodeios de linguagem e verborreia inútil dado o avolumado e a urgência de actividades que ocupam vosso eterno tempo nas Guinés, no Afeganistão, no Iraque, na  cidade da Praia, enfim...Vou directo ao ponto.

Em primeiro lugar quero agradece-lhe a gentileza de não me ter convidado a festa de comemoração da vossa vitória. Pelo volume do som e pelo entusiasmo presumo que tenha sido mais um pleito bem sucedido com aquele de quem não devemos pronunciar o nome, aquele que aguarda pachorrentamente nossos ministros e presidentes lá nas profundezas. Agradeço sim porque, o estilo musical a mistura com aquela desafinação toda não são exactamente o que me agradaria de modo que seria uma tremenda “seca” se eu lá fosse.

Cheguei em casa cansado depois um dia de trabalho. Para efeitos de clarificação digo-lhe que trabalho significa também circular pelas ruas esburacadas, feias e fedorentas desta cidade e encarar o cenho mal-humorado dos praienses, incluindo o meu. Dizia que regressei cansado à casa no fim do dia mas, bem-disposto. Assim, me apetecia escancarar as janelas (com rede!) para minimizar o calor sufocante e cozinhar um "rango" com um allegretto de Vivaldi nos ouvidos e uma taça daquele tinto na mão, aquele que vossos intermediários tanto apreciam.

Tal capricho não me foi de todo possível dado o ruído ensurdecedor da vossa comemoração que se prolongou noite dentro. Fazendo um parênteses fiquei surpreendido pela positiva ao saber que sois apreciador do estilo “hip hop”. De qualquer modo peço-lhe encarecidamente que na próxima celebração baixem um pouco o volume do som para que não se propague tal longe e tão intensamente como ontem.

Por outro lado queria pedir-lhe perdão por ter me referido aos seus seguidores com aquelas obscenidades e por desejar que fossem ter com o maior inimigo de vossa senhoria lá nas profundezas.

Para não me esquivar de dar notícias da Praia digo-lhe que fui fazer o meu “footing” matinal devidamente lambuzado de um repelente “fedorento” e que, nas águas paradas das valas e “riachos” habituais desta cidade, tão habituais que até parecem patrimónios culturais, temos nos empenhado com o todo o necessário afinco na preservação de espécies da vossa autoria como sejam o “aedes aegypti” e todos o seus primos, bem como de outras espécies rastejantes, voadores, roedores e microscópicos. Preservamos também, imbuídos do mesmo espírito ecológico, a espécie dos "políticos descerebrados". De modo que se por um infortúnio qualquer ou, se por decisão justa e suprema, se fizer perigar a existência de tais seres e, por imposição vossa for imperativo uma arca semelhante ao do brioso Noé, com a morabeza e solidariedade que nos são característicos cederemos de bom grado vários exemplares de tais espécies à vossa senhoria.

Quanto a mim, pessoalmente, estou bem excepto a minha luta com um parasita que recebi de bónus na “água potável” da Electra durante a minha inglória pretensão de escovar os dentes. Trata-se de um prémio justo creditado à um cliente que paga de modo alienado e sempre atrasado, também sem muita reclamação, toda a super facturação que me é imposto  carinhosamente.

Meus respeitos.

Assina vosso Servo.

PS: Alegra-me saber que expressões como “sab pá cagá” tipicamente mindelenses já fazem parte do vocabulário badio e, particularmente, do vocabulário de vossa senhoria e dos vossos zelosos seguidores.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Veredas da Arte

Rosário Gomes

                                                                                                 Carvão s/papel
                                                                                                 Rosário Gomes

Feliz descoberta para mim a pintura/poesia de Bia ou, se quiserem, de Rosário Gomes como consta na net (http://rodesignarts.blogspot.com). Há muito que ouço falar da obra dela pela boca de amigos e familiares. Hoje, superando a minha terrível impaciência com o computador encontrei-a nessas trilhas do mundo...felicidades a nossa Rosário e a toda a nova geração de artistas, no caso específico, de Santo Antão, que necessariamente são homens e mulheres do mundo, como o Bento Oliveira, o Teodoro Campos e outros e, de Cabo Verde em geral, e das artes em geral para que possamos desbravar trilhas humanistas, um pouco mais humildes do que as que temos engendrado, para encetar a necessária fuga a essa engrenagem metálica que quer nos coisificar e nos esmagar como se nos faltasse dom para sermos homens e mulheres. 

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Veredas da Poesia

Tapeçaria artística
Fonte: http://cristear.spaces.live.com

O porto

vou esculpir nas palavras breves
nas incandescentes e nas sóbrias
nas fugidias e nas melódicas 
o conteúdo dócil do teu olhar...

vou estancar a ignóbil fuga
imanescer no teu colo de névoa 
e acalentar meu sonho secular
em breves cânticos de embalar

finalmente!
vou silenciar meus soluços
em circulos concêntricos
cauterizar os passos fugidios
e no olhar siloncioso
vou anunciar...
o derradeiro vocábulo redentor!
OL

Veredas da Arte

Olhares íntimos

...actualmente quando vou à Santo Antão passeio pelas montanhas e veredas em jeito de refúgio e de regeneração. Por vezes, resgato memórias e impressões, um pouco nostálgicas, inscritas em mim e na familiaridade das paisagens. Memórias de uma infância e juventude felizes e vividas em liberdade e  comunhão com a natureza...
...o latido distante de um cão, o cumprimento ao longe de duas mulheres, o berro breve de um cabrito, o som opaco de uma enxada em luta com a terra ressequida, o rugido monótono de um motor, a água caindo algures, o voo breve de um insecto, a imprevisível brisa nas folhas do canavial podem ser o pano de fundo de uma introspecção quase imperceptível, uma espécie de vivência onírica...de repente o olhar encontra-se com cores e contrastes. Demora-se...retiro do bolso do short a maquineta do "tipo apontar e disparar" que agora substitui a velha Pentax Asahi e registo um momento de intimidade, de quase nudez... que agora começo a partilhar!












quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Veredas da Poesia


Espelho

Podes ser toda a vida imitação 
tudo estudado em cada gesto exposto
papel que representas
muio exacto.

ou podes enfrentar a solidão
deixar que pouco a pouco um rosto
rompa entre fendas
teu final retrato.

Autor: Bernardo Pinto de Almeida

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Veredas da Poesia


Carlos Drummond de Andrdade, um dos poetas que me encantam pela simplicidade da linguagem e pela escrita intuitiva, sem "racionalismos" e sem disfarces de dicionário, "assim como a vida é!" como diria Raduan Nassar, um dos maiores da literatura lusófona, com "um olho nos livros e um olhão na vida..." 

...José na voz do próprio Drummond!

José pode ser meu pai, um homem que foi imitar a alvura dos gelos da Escandinávia e trouxe-a nos seus cabelos de há muito brancos , um homem que guarda na sua retina  a  memória do respeito com que os noruegueses o trataram  em quase três décadas de emigração. Respeito que em grande medida só pode granjear  em recordações, pois, por aqui  é geralmennte "improcedente". Mas também pode ser João, como o  fino artista/pedreiro Junzin d'Polina a quem me afeiçoei profundamente só de ouvir suas estórias  na voz do seu e do nosso Paulino Dias, pode ser também João do Carmo do alto da sua serenidade e do seu espírito jovem e empreendedor. Pode ser Nhe Crulin, Nhe Fidjin, Manuel, António, teu pai, minha mãe, minha tia, todos octogenários, enfim, um sem número de heróis anónimos que verdadeiramente desbravaram com os seus dedos, em carne viva, esta terra inóspita e nos legaram trilhas heróicamente abertas, na mente e nas ilhas ressequidas. Trilhas essas que ainda não tivemos a humildade e a sereneidade necessárias para as entender e seguir!

" de nós, velhos, desculpam-se os erros,
pois não encontramos as estradas abertas;
mas de quem chegou ao mundo depois de nós,
pode-se exigir mais; andarão por caminhos
que nós já abrimos"(J.P Eckermann)

E agora José?