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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Veredas da Arte

Por uma nova era...


A Cidade da Praia parece definitivamente ter superado o desalento da ausência de eventos culturais. Em 2010 produções  de  diferentes áreas foram se sucedendo...que nos anos que vêm pela frente essa dinâmica se intensifica, se diverisfica e se enriquece, independentemente de haver ou não políticas públicas para o sector. Que sejam os produtores e os fuidores das artes e da cultura em geral os motores de um "novo momento" na história deste país. Se os "políticos" preferem instalar-se confortavelmente na ignorância (entenda-se burrice)  a respeito do verdadeiro papel da cultura na vida e na evolução desta sociedade "que o diabo os carregue"!

...ontem fomos conferir o lançamento do primeiro livro do Abrão Vicente, tendo como pano de fundo o sorriso bricalhão do Princezito e a leitura teatralizada de trechos do "Trampolim" pela voz de homens e mulheres. Não faltou uma taça de um bom tinto, é claro. O pouco que  ouvi e dos extractos que li  nasceu uma grande empatia, a priori, com essa obra. Há muito que a produção literária cabo-verdiana reclama por novos rumos, por criações na verdadeira acepção da palavra. A mim me tem aborrecido o status quo, a monotonia que se vai verificando na nossa prosa e   poesia. Precisamos de um Raduan Nassar e de um Carlos Drummond de Andrade para nós. Criadores que rompam com um ciclo que foi bom e enriquecedor mas, que já cumpriu o seu papel social. Arte é inovação, é a criação de novas formas, é ruptura.

Apesar da humildade com que Abrão Vicente encara o seu "Trampolim" faço votos que seja ele o nosso Raduan Nassar e, se não for, que seja o catalizador de uma "nova era" na nossa produção literária. Que o "Trampolim" cumpra seu papel de catapultar o autor para outras altitudes (de criatividade) e que sirva de estímulo para estilhaçar a timidez de criadores em potencial, que estão por aí ocultos na multidão. Para o Abrão que esse primeiro seja o primeiro de muitos...

OL

Veredas da Arte

Mon na Roda...vale a pena conferir

De preferência motivados pelo prazer da fuição artística...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Veredas da Arte

Tony Allen

Há poucos dias atrás num apelo 'marqueteiro' e puramente comercial a cidade da Praia nos impunha um tal Akon, que por arrastão da imperiosa necessidade de modelos/ídolos,  fenómeno próprio da adolescência, levava na onda barbudos e 'cotas' para ouvir em 'play back' um artista que desconheço de todo mas que merece o meu respeito. Como diria o Gilberto Gil todo o estilo musical cumpre uma 'função social' específica e, só por isso, a principio já é respeitável.

Eu que já havia me rendido aos encantos do 'Afrobeat' de Fela Kuti estando um bocado a leste das 'coisas do mundo', um pouco como resultado da tal suposta 'dolência crioula' mas, maioritariamente pela ausência de informação de qualidade que por aqui nos é imposto, nem sonhava que poderia ter o previlêgio de ouvir e ver aquele que foi seu produtor musical durante uma década.

Ontem a noite o CCF nos brindava um 'show' memorável no sentido mais lato da expressão. O Tony Allen, co-fundador do ritmo 'Afrobeat', um homem baixote de 70 anos de idade, parco nas palavras, tanto no dialogo com o público como nas letras da sua música, atrás da sua beteria e acompanhado por cinco extraordinários músicos hipnotizou uma plateia, maioritariamente europeia.  O cabo-verdianos eram meia dúzia de apaixonados e curiosos, público esse que espero que cresça em jeito de conta-mão e a revés da alienação que se faz praxis. Seja como for o que se viu e ouviu foi ARTE no verdadeiro sentido da palavra, muito dele improvisado. Arte de um homem que participou na invenção de um estilo musical e que já fez cerca de 40 discos. 

Em Outubro o mesmo CCF já havia oferecido à esta cidade um outro espectáculo de enorme qualidade, a ópera 'Mozart Point Final'. Salvaguardando o respeito e o carinho pelos bons espectáclulos de 2010, entre eles um bom punhado de artistas nacionais, não hesitaria em classificar os shows do Tony Allen e o 'Mozart Point Final' como os dois melhores do ano. Modesta e leiga opinião. Essa música não sai dos meus ouvidos e dá um imenso prazer...ainda a oiço!

OL


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Veredas da Poesia

Os nomes da curvatura
Não era a primeira vez que se sentia Rosa. Tinha um ‘s’ minúsculo pachorrentamente sentado no bico do seio direito, aquele que melhor se dava aos lábios, mais por não se sabe bem o quê do que por destreza.

‘S’ é curvatura que se esquiva a linha. Linha que do falo nunca foi essência. Embora, a verdade não seja exactamente a tal cadela, é verdade que rosa e sexo são formas que contém em si muita curvatura. Estaria ali a essência do inominável? Pois, enfadonha seria  ela, a vida, que melhor se consagra nos suspiros (gozo é desejo renovado!) se uma inflexível linha fosse. Nem eros nem thanatos nos inspiraria um tal traço. É, no entanto, no entremeio dessa ausência que se descobriu ‘s’ e, como rosa – que não é nome com que se possa baptizar uma menina - no invisível templo desdobra-se em macias sinuosidades.

…foi então que, insinuante, a Lua, que é Puta por inequívoca vocação e devassa praxis (cabível em qualquer moral) se despontou como curvante e derradeira metáfora às sobras do ‘s’, do qual só restam vagas reminiscências (memórias odoríferas da Rosa, a tal menina sem nome) …
OL

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Verdas da Saúde


Fotografia de Man Ray

Um “novo alcoolismo” ou duas décadas de intoxicação alcoólica com a cumplicidade do estado de Cabo Verde

Com a abertura política na década de 90, numa mistura entre o favorecimento de agricultores revoltados com as políticas do regime ditatorial, com o intuito de silenciar a intenção de não cumprir as promessas de justiça feitas em campanha e, uma diluição crescente da autoridade que se deslocou do autoritarismo para a ausência, liberalizou-se a produção de aguardente a partir do açúcar refinado na ilha de Santo Antão. Somada a produção da Ilha de Santiago, que em regra era de má qualidade, toneladas de aguardente com alto índice de cobre, de álcool metílico e de outras substâncias nocivas a saúde, totalmente fora dos parâmetros definidos pela OMS relativamente aos produtos para consumo humano, foram introduzidas no mercado cabo-verdiano.

A partir de então milhares de pessoas, na sua grande maioria jovens do sexo masculino passaram a morrer de cirrose hepática com uma enorme frequência. Nota-se que a cirrose hepática é uma anomalia orgânica que resulta de longos anos de consumo persistente de bebidas alcoólicas. Normalmente decorre do alcoolismo crónico. Estranhamente, mas nem tanto, a média de idade cientificamente prevista para o surgimento dessa doença a nível mundial, em Cabo Verde praticamente foi reduzia para a metade. Isso indicia que não tem sido necessário uma “carreira” de alcoólico para o surgimento do mesmo. Esse evento aponta para uma elevada toxicidade da aguardente produzido em Cabo Verde, a partir do açúcar refinado. Para além da cirrose várias doenças dos sistemas digestivo, cardiovascular, entre outros, para além dos distúrbios mentais, dos problemas sociais e económicos são diariamente registados.

A título de exemplo, segundo fontes credíveis, apesar de algumas falhas nos registos estatísticos, no banco de urgências do Hospital Regional da Ribeira Grande de Santo Antão, a patologia prevalecente na procura do serviço é o alcoolismo, que muitas vezes ultrapassa os 90%/dia.

O estranho é que nas discussões sobre o assunto “Grogue de Santo Antão” prevalece o discurso “económico” e o discurso de “valorização” do mesmo, abstraindo-se do problema da “saúde pública” e do problema humano e social.

Milhares de famílias perderam o seu principal provedor. Muitos filhos perderam o pai e ficaram marcados pelo fenómeno do alcoolismo, que deixa marcas traumáticas profundas no psiquismo humano. Marcas que terão que carregar pelo resto da vida, com todas as suas consequências, inclusive a maior probablilidade de se tornarem também alcoólicos. Cabo Verde vai perdendo, principalmente nas zonas rurais, muita mão-de-obra. Milhares de contos são gastos no tratamento reiterado de doenças agudas e crónicas derivadas da adicção etílica. Gastos esses que nem sequer podem ser compensados pelos impostos arrecadados a partir dessa “indústria”.

O silêncio das instituições públicas nos níveis local e central em relação a essa “chacina” é uma das piores aberrações que já presenciei na minha vida. Para terem uma ideia da gravidade da toxicidade desse produto seria de longe preferível as pessoas comprarem álcool etílico a 90º nas farmácias, dilui-lo em água potável e beber. Os danos a saúde seriam de longe menores.

A produção da aguardente nos moldes anteriores a década de noventa era mais vantajosa do ponto de vista económico para os verdadeiros agricultores. O que faltava na época era valorização e a promoção do mesmo como um produto artesanal de luxo. Nos moldes actuais é muito vantajosa para os não agricultores. Esses são uma espécie de “traficantes legais de drogas”, com a anuência do próprio estado.

Pergunta-se que raio de estado é esses que permite o assassinato dos seus cidadãos? Se me perguntassem a mim: planto cannabis sativa (padjinha) ou faço aguardente de açúcar? Responderia sem hesitação: liberalizem a padjinha. Apesar de conhecer profundamente os males derivados dessa droga cujo consumo persistente levaria a distúrbios mentais, esses têm sempre possibilidades de tratamento. Pelo que saiba ainda não se descobriu a fórmula para ressuscitar os mortos.

Confrontados com o silêncio do estado, que deveria ser o primeiro defensor dos cidadãos e dos seus direitos mas, que pelo contrário se transforma em cúmplice de práticas destrutivas, ele (o estado) torna-se o único e verdadeiro responsável por todas essas perdas humanas e pelas suas consequências.

Antes de se equacionar qualquer solução para o desenvolvimento económico de Santo Antão, com enfoque para a questão da produção e valorização do “grogue”, é imperativo discutir e solucionar essa violência perpetrada por meia dúzia de oportunistas, engajados no enriquecimento fácil. É imperativo que o estado assuma de forma responsável seu papel como regulador e fiscalizador dos produtos destinados ao consumo humano. Prioritariamente promovendo a proibição e a eliminação da aguardente fabricada a partir do açúcar refinado. Pela toxicidade do mesmo e pelo problema gravíssimo de saúde pública daí decorrente, um estado responsável confiscaria e destruiria as toneladas desse produto armazenados em Santo Antão, e não só.

Para concluir diria que um dos factores preponderantes na origem de qualquer toxicomania é exactamente a oferta. Esta, infelizmente, é coisa que não falta por aqui.

Olavo da Luz
Terapeuta Ocupacional

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Veredas da Saúde


Pintura de Pablo Picasso

Dez de Outubro é a data escolhida pelas Nações Unidas, através da WFMH (Federação Mundial da Saúde Mental), para chamar a atenção das pessoas ao redor do mundo relativamente as complexas questões da promoção da saúde mental.

O dia se aproxima e irei escrever uma série de “artigos" sobre o tema "Saúde Mental".

Exclusão social dos portadores de distúrbios mentais– um projecto alienado de estigmatização

Para mim Saúde Mental significa a pessoa sentir-se predominantemente com capacidade emocional e física para viver, sem o dispêndio de níveis de energia interna para além do necessário. Viver significa realizar suas tarefas e relacionar consigo e com os outros de forma criativa e motivada. Significa solucionar suas dificuldades sem manter um elevado nível de desorganização emocional, psíquica e física por um longo período de tempo. Para a saúde mental/distúrbio mental concorrem todos os “sectores” da vida da pessoa e da “comunidade” (nos níveis macro ou micro-social) onde se “insere”.

A apropriação das questões da loucura e da doença mental pela medicina e pela psicologia, posteriormente pelas outras ciências que tratam dessas questões, se revelou uma faca de dois gumes. Se por um lado lançou-se luz sobre alguns fenómenos psíquicos, fisiológicos, antropológicos e sociais que concorrem para a saúde/doença mental, por outro lado constitui-se uma avalanche de pré-conceitos (inclusive científicos) e de mecanismos emocionais e sociais que dão corpo a resposta de uma solicitação alienada das sociedades: a etiquetagem, a estigmatização e a marginalização.  Simplificando, a sociedade pede aos profissionais da saúde mental, imbuídos de um poder que lhes é facultado por essa mesma sociedade, que “separem o trigo do joio” indicando de forma clara quem é louco e quem não é.

O problema daí decorrente é que a separação estanque entre loucos e não loucos é impossível. A loucura em geral e os limites daquilo que denominamos de doença mental são definições limitadas no tempo e no espaço. De certo modo não têm existência ontológica. Não têm força de “ser”. A loucura, o desvario, a perda de controlo, a contestação aparentemente absurda fazem parte da existência humana.

A etiquetagem (o diagnóstico) tranquiliza as pessoas e os médicos. Assim, quando “se olha a espelho” pode-se olhar para um louco, porque todos nós de certo modo o somos, mas veremos um indivíduo “equilibrado” na certeza tranquila de que os loucos estão na “Trindade”, na “psiquiatria”, na “Ribeira de Vinha”.

Não nego a existência das doenças mentais. Pelo contrário considero-as as maiores fontes de sofrimento e de angústia. O que temos que negar veementemente são os paradigmas decorrentes não de conhecimentos científicos sólidos mas sim de mecanismos psíquicos de defesa (loucura) que transbordam para o social, se potencializam e retornam para as equipas de saúde mental que rotulam e excluem pessoas, violando seus direitos e empurrando-os de forma inadvertida, mas covarde, para uma carreira de louco, para  a mais trágica das mortes – a morte existencial.    

Todo o profissional de saúde mental tem de fazer uma auto-análise permanente para confrontar-se com seu afectos e suas ideias e entender as motivações das mesmas. Todo o profissional de saúde mental tem que potenciar diariamente a sua própria saúde mental e encurtar o campo da sua loucura para que possa acolher seu cliente com a “assepsia mental” necessária para o ajudar. Mais do que uma questão técnica é uma questão ética. Para além disso ele tem que transmitir à sociedade informações claras e correctas sobre a saúde/doença mental. A melhor delas é devolver a essa sociedade um cliente que viva e conviva como os demais membros, participando activamente no circuito das trocas sociais, isento do estigma da loucura e da improdutividade. 

Com o avanço da ciência no domínio da psicologia profunda, dos psicotrópicos (drogas para tratamento de doenças mentais), do serviço social, da terapia ocupacional, da análise institucional, etc. o tratamento dos distúrbios mentais é, em geral, simples e possível.  A grande maioria dos chamados “doentes mentais” podem viver como todos nós. Podem estudar, trabalhar, criar, participar, amar, constituir família…se não o fazem é porque de forma activa, porém alienada, os impedimos de o fazer. Os impedimos de modo individual e os impedimos como sociedade. Os impedimos de modo esporádico e os impedimos de forma organizada, institucionalizada, através do estado e das suas instituições.

Os doentes crónicos e maltrapilhos pelas ruas dos centros urbanos, os doentes trancados em casa num sofrimento inimaginável, as doentes com recaídas frequentes nos nossos serviços de saúde mental, os doentes “moradores” nas instituições de saúde…todas essas situações são absolutamente desnecessárias, podiam e deveriam ser evitadas.

As reformas necessárias no sector da saúde mental em Cabo Verde não são essencialmente técnicas, não decorrerão prioritariamente da alocação de recursos humanos e materiais. Não. As reformas necessárias decorrerão da desconstrução dos paradigmas alienados e alienantes. Serão impreterivelmente no domínio da ética, da cidadania e dos direitos humanos.  

Olavo da Luz
Terapeuta Ocupacional

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Verdas do Cinema

O Discreto Charme da Burguesia de Luis Buñuel
(Le Charme discret de la bourgeoisie, 1972)

Um pequeno trecho do filme Le Charme discret de la bourgeoisie que propõe uma crítica muito ácida  à burguesia. O realizador é o espanhol Luis Buñuel, de orientação surrealista. Neste  filme conta a história de seis burgueses que se reúnem para um jantar rodeado de acontecimentos no mínimo esquisitos.

Vi o filme em meados de 90 e fiquei fascinado. Acredito que vale a pena conhecer a obra de Buñuel. Não só este filme mas toda a obra dele. Para os amantes do "cinearte" é uma descobreta ou redescoberta muito feliz.

• Direção: Luis Buñuel
• Roteiro: Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière
• Gênero: Comédia/Drama/Fantasia
• Origem: Espanha/França/Itália
• Duração: 102 minutos
• Tipo: Longa-metragem