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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Veredas da arte

Charlie Kaufman, roteirista e realizador, uma feliz descoberta para mim...

Synecdoche, NY


Adaptation


Human nature

quarta-feira, 16 de março de 2011

Teodoro de Marcelino, cidadão anónimo

A Morte de um Artista...


Foto de Olavo da Luz: Vista de Lombo de Macário, onde residia Teodoro, apartir da casa dos meus pais.

Na semana passada morreu Teodoro de Marcelino, um cidadão anónimo, que na melhor das hipóteses fazia parte da lista de eleitores. Para mim, mais um dessa lista e, feliz ou infelismente de outras , Teodoro é hoje esse fino traço de saudade que atravessa meus ‘olhos grandes’ (expressão do Paulino) e deixa uma promessa de lágrimas e um suspiro de paixão. Revejo seus olhos pequenos e bonitos, sua voz firme e sua amabilidade paternal. Me arrependo de não ter saido do carro há duas semanas atrás para o abraçar em vez de me ter limitado a um aperto caloroso de mão. Ele e a esposa vinham da missa domingueira. Pelas minhas contas, apesar da altivez e firmeza de um jovem andava pelos seus 70 anos, embora o visse como uma espécie de homem imortal. Havia decidido que iria pedir que me fabricasse um tambor mas, não quis importuná-lo naquele momento e nem estragar o sabor daquele encontro fugaz e casual.

Teodoro é um desses homens que, sem heresia, poderia ter dito “eu sou o dono da vida, eu a criei”. Não o diria com o logos e nem por escassez deste, característica completamente avesso ao parlador homem de Santo Antão, mas com suas enormes mãos calejadas. No limite entre a morte e a criação, digo-o pela natureza da matéria-prima e da ferramenta, a balança de Teodoro pesou inconfundivelmente para a vida. Cesteiro exímio, tranformava o caniço e a sua faca afiada em vida, rítimo, harmonia, beleza. De tal forma que quem via seus balaios estilizados queria sempre um e, te-lo-ia a baixo custo, com a humildade e a presteza do Homem Santantonense. Visionário, transformou o balaio utilitário em souvenires que hoje saciam o imaginário de muitos andarilhos emigrantes pela Europa e pelas Américas. Sua tira de transagem era personalizado, mais fino, escolhido a dedo, sem mácula. O rítmo da sua transagem, tão bem bem balanciado, dir-se-ia uma toada de São Pedro saída do tambor que tocava com tamanha harmonia, alegria e sobriedade no recreio da sua arte de cesteiro, pelas múltiplas festas de romaria. Tambor esse que ele mesmo fabricava e coloria.

No pequeno mundo do vale de Chã de Pedras Teodoro de Marcelino é um artísta sobejamente conhecido. Sua obra faz parte da cultura visual do seu povo. Vejo-a claramente enquanto penso e escrevo. Autor dos incontáveis ‘Tambaques’ repletos de espigas multicolores dos anos de fartura, que encimam quase todas as casas do vale e que transbordam para as outras ribeiras, dos Balaios grandes e pequenos que transportam e transportaram durante décadas a cheirosa cachupa guisada, o peixe frito, o aromático café de Fajã dos Bois, a batata assada saída dos calor dos alambiques, o cheiroso grogue de cana sacarina e tantos outros aromas e cores, destinados aos rústicos e sacrificados homens das lavouras. Autor de centenas de Bandejas, irmãs gémeas do pilão, que nas tardes remotas ritma de forma nostálgica e quase silenciosa a separação do farelo, aprumando o milho e a farinha para a cachupa diária e para o fumegante cuscus. Permeando esses prazeirosos sutentáculos da vida dos briosos Homens dos místicos vales de Santo Antão, lá estão sempre essas mãos aparentemente calejadas, porém de uma suavidade e de uma finesa propícias a melhor e mais deliciosa carícia.

No entanto, a arte e a mestria de Teodoro de Marcelino foi soterrado com ele. Tal como tantos outros construtores da vida e das história deste país, ninguem apreendeu e ninguem registou os seus conhecimentos, lamentavelmente.

Quanto a mim, para além das saudades carrego comigo essa teimosia: “vou ter um tambor com a tua assinatura, Teodoro de Marcelino” e , então, dar-te-ei o abraço que, naquele dia, te soneguei por mera distração.

Um grande beijo, meu irmão.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Mais uma noite...



O cansaço e aquela ausência, de certo modo incompreensível, reforçavam seu sentimento de desamparo. Sem rumo certo saiu a procura de um lenitivo que lhe pudesse apontar uma bela descida ao vale de morfeu. Instintivamente esquivara-se do lugar comum. O vinho estava fora de cogitação. Ainda pegou o telefone e pensou na mulher mais disponível, que o receberia sem muitos rodeios. Sorriu e jogou o aparelho no porta-luvas. Havia meses que fazia esse mesmo gesto seguido do mesmo sorriso. Tal como outrora, tentou encontrar na sua memória uma imagem consoladora entre as muitas paixões e aventuras amorosas que vivera. Mas nada disso fazia mais sentido. Havia arrumado cada paixão, cada romance, cada mulher bonita, cada noite de sonho, cada promessa em caixinhas/quadrados estanques, hermeticamente fechados, que guardava como um tabu em lado incerto do seu coração.

A meia-lua com bicos apontados para o céu, pachorentemente posicionada rente a montanha, ao meio da ilha de Santo Antão, compondo um belo quadro de contrastes indescritíveis, lhe apontava um rumo. Seria uma Afrodite ou  sósia sua que o convocava para prosa incerta. Limitado pela sua condição de ilhéu, que ora constituia de certo modo uma vantagem, Léo desvencilhou-se da cidade e, minutos depois estava a sós com as pacíficas silhuetas negras das montanhas. Inadvertidamente, uma breve e parca lágrima rolara do canto do seu olho direito. Pensou: há de ser da brisa. Suspirou e, como um voice over num black screen escrevera com a a sua potente e embaçada voz interior:

Quisera amiga que cá estivesses. Não precisavas estar perto. Bastava que estivesses viva, que a imagem consoladora da tua mão penetrando suavemente a carne dolorida do meu peito, massageando esse meu coração que te comoveu, para que a solidão assumisse a sua condição natural e pudesse somar inconscientemente mais um dia à minha existência. No entanto, teimas com essa mão inerte sob essa face lívida como se tua vida, humana que fora, fosse apenas paz. Estivesses aqui, digo algures, falar-te-ia, ouvisses ou não, das lágrimas verdadeiras que chorei por uma mulher na calada da noite. Eu que, como bem sabes, guardo séculos de lágrimas nas fibras contraídas das minhas têmporas. Pois, veja que chorei e solucei de felicidade por ter visto, creio eu, a felicidade no rosto de uma amiga. Ou teria chorado por mim? Eu que ainda não chorei por ti. Ou talvez o tenha feito sem que o saiba. Ficarias contente em saber dos meus recentes desamores e dos meus mais recentes pesadelos nocturnos, não pela minha infelicidade, mas pela confiança que te dedico. Tenho me consolado com a voz do mar. Não recordo ter-te confidenciado essa minha excentricidade banal. De qualquer modo a lua sumiu e, na imensidão de estrelas, nesse imprevisto céu de Março, acredito ter-te visto brilhar no céu. Por isso me calo...’

Soprava uma fresca brisa no alto da montanha. No rádio uma voz masculina entoava doce e ironicamente ‘love me tender…’Como pano de fundo ouvia-se o barulho do motor, uma sinfonia suave de grilos na noite e o assoviu da brisa que se impunha pela fresta do vidro ligeiramente aberto. Santo Antão cobrira seu quarto-crescente com um manto negro. No céu, supostamente azul, um mar infinito de estrelas cintilavam. Como cintilavam e transmitiam uma estranha e imensa calma. Na alma do homem uma ligeira cicatriz e aquele anseio repentino e insaciável de estrada. Sorriu e pensou "há de ser apenas mais uma noite"…

Olavo da Luz

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

REALIZAÇÃO E VIOLÊNCIA SIMBÓLICAS




As condições constitucionais que a natureza ofereceu ao ser humano, nomeadamente, o tamanho do cérebro, a linguagem e as emoções permitiram ao animal-homem alçar vôos jamais sonhados pelos seus antepassados. A pessoa humana não se limita a usufuir-se do mundo natural. Ele cria literalmente uma multiplicidade de mundos. Num processo dinâmico e dialético, ao criar ele recria a si próprio continuamente, de tal forma que podemos afirmar que no domínio humano nada mais é natural.

Porém, a revelia das suas fantasias e dissociações, das capacidades infinitas resultantes da inteligência, da intuição e dos afetos, a pessoa humana continua a ser um animal. Um animal muito frágil e, sobretudo, um animal consciente da sua inefável finitude, da sua morte. Como se tal não bastasse, a sua sobrevivência depende do tal ‘pacto civilizatório’ que o obriga a prescidir-se de grande parte dos seus desejos, resultantes dos seus instintos primários (o agressivo e o sexual), para que possa viver em sociedade e sobreviver fisica e existencialmente.

É nesse processo dialético do fazer e do fazer-se que nasce a cultura, essa caldeirada de produções intelectuais, de religiões, de artefactos, de ideossincrasias...É nesse turbilhão estetizado que a pessoa humana se eterniza. Então setenta anos de vida parece uma eternidade. Nesse intervalo insignificante, a dimensão do cosmo, ele ama e odeia, vive dores que beiram o insuportável, procria filhos e obras, descobre a insignificância e a grandeza da vida, troca as voltas ao inferno e ao céu e, decobre a irremediável solidão para além de todos os romantismos. Nesse jogo frenético, muitas vezes incompreensível, dribla o monstro indomável chamado natureza, engoda e contradiz habilmente a sociedade que já estava ‘pronta’ ao nascer, encontrando por esta via canais de satisfação de desejos íntimos, acessando uma liberdade que jamais conseguiria de forma aberta. Realiza desejos ‘incivilizados’ por vias civilizadas. Mata e morre sem matar nem morrer, perpetuando a raça a revelia dos seus instintos.

A cultura não é apenas importante para o homem. O homem é cultura. Ao subtrair a cultura da vida humana a pessoa torna-se um animal banal como outro qualquer. Portanto, promover a cultura é promover o homem. É uma praxis humanista. Não promover a cultura é negar a existência humana, reduzindo o homem à condição de animal de capoeira.

Em Cabo Verde temos deparado com um conceito pobre e ignorante de cultura. Prevalege o pré-conceito de cultura/lazer. Esse engodo vem da ilusão de que um espectador, por exemplo, vai ao teatro ou ao cinema para se divertir. Pura ilusão. O espectador pouco tem de espectador. Ele participa emocional e activamente do trama. Ao se identificar com os personagens ele mata e morre, penetra e é penetrado, ama e odeia. Revive num nível irreconhecível, para ele e para nós, eventos importantes da sua vida psíquica. Escancara e sara feridas, se emociona, ganha e perde no espaço confinado de uma sala escura de cinema ou de teatro. E, irritado, introspectivo, apaziguado ou de lágrimas ressequidas num rosto iluminado saí para a brisa da noite menos animal e mais humano, mais civilizado, mais saudável, mais aberto para potenciar o amor e lidar com a sua agressividade e com a sua sexualidade. Mais apto para ampliar o campo do ‘instinto da vida’ e contrariar o ‘instinto da morte’, que lutam incessantemente lá no mais fundo do seu ser. Ilude-se quem pensa que os o risos arrancados pelas cenas de uma comédia são apenas tiradas ilariantes de um dom cómico. Atrás de toda comédia esconde-se uma inimaginável agressividade, sublimada, disfarsada e descarregada fisicamente através do riso.

Falo das artes cénicas a título de exemplo e das artes em geral como elementos culturais, mas poderia falar da pintura, da dança, da música, da arquitectura, da ciência, da religião.

Um político que conseguisse entender a função da cultura na existência humana não hesitaria em colocar esse sector no centro dos seus projectos. Assim fazendo, a sociedade que ele lidera teria mais saúde, melhor educação, melhor produtividade e criatividade, melhor sociabilidade, menos violência, mais ética, mais justiça. Não é e não será esse o nosso caso. O máximo que conseguimos até hoje é o discurso patético e alienado da promoção da ‘industria cultural’. Este discurso nada mais é que uma forma polida de disfarsar, com um sorriso amarelo, o projecto de não investir no sector. Essa idéia da ‘industria cultural’ muito mensionada nas últimas campanhas eleitorais pelos dois líderes dos nosso maiores partidos políticos, traduz-se na concepção que insinua que ‘se não podes oferecer rosas frescas, supostamente por problemas climáticos e/ou financeiros, ofereça rosas de plástico made in china´ porque afinal estamos numa era industrial e de primazia incontornável do capital sobre a pessoa humana.

O que esses líderes não entendem é que investem milhares de contos a tratar doenças que não existem, somatizações da infelicidade humana. Que nos ambulatórios de Santo Antão à Brava os médicos dedicam horas a consultar pessoas que de doença física nada têm, no entanto, prescrevem drogas e análises clínicas caríssimos que saem dos cofres públicos. Que esses mesmos pacientes preregrinam de médico em médico a procura de um desesperado viés para fugir a angústia advinda da ausência de meios de realização simbólica. Que ‘o novo alcoolismo’, que muitas doenças psicossomáticas graves, incapacitantes ou mortais são produtos da infelicidade humana que favorece o ‘instinto da morte’, a desistência da vida, o suicídio disfarsado.

Não entendem que a violência que graça nos centros urbanos, que nos constrange e terrorrifica, e para a qual não têm nenhuma solução a vista, para além dos dorminhocos guardas guineeses, é o produto óbvio e linear dessa mesma carestia de meios de realização simbólica, de sublimação, de canalização e ressignificação dos instintos agressivo e sexual, que são fenómenos humanos e naturais. Que essa violência resulta do compreensível ‘mal estar na civilização’, mas que é anti-civilização. Rasga o pacto civilizatório. Mas também que, a despeito de ser destituido de ética, é a reacção mais saudável e coerente dos cabo-verdinaos nas últimas três décadas. Porque violência gera violência. E é o próprio estado que despoleta essa violência através das suas políticas e prácticas carregadas de violência simbólica e de acuamento. Que a reacção desses jovens, oriundos das periferias era absolutamente previsível, mas agora nos discursos aparece, por ignorância ou por hipocresia, como um ‘fenómeno novo e imprevisível’.

O que que não investimos na promoção cultura, na promoção do homem caboverdiano investimos e invetiremos em quadriplicado nos sectores da saúde, da segurança, da segurança social mas, sobretudo, pagaremos um preço incalculável através do terrorismo que nos invade ao enfiar nervosamente a chave na porta da nossa casa e na sensação vaga e desconfortável de infelicidade que percorre o coração de muitas pessoas de norte a sul deste país, que mais tarde ou mais cedo se tranformará em auto ou hetero agressividade, restando-nos como únicas saídas matar ou morrer, como se a morte de um homem tivesse alguma importância e, pior, com custos financeiros e sociais tão elevados, que configuram um luxo supérfulo de uma sociedade extremamente rica.

Olavo da Luz
Terapeuta Ocupacional

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

AS PERIFERIAS DA VIDA



Escrevi este texto há cerca de três semanas atrás. Depois desisti dele. Porém ,relendo-o resolvi publica-lo a revelia do seu enquadramento no tempo...aí está: 

'A seguir aos cumprimentos habituais ‘tiaAninha’ prossegue habilmente seus arremendos com a fineza imperturbável do alto do pedestal da sua ‘visão’ octogenária. Simpaticamente vai me fazendo as perguntas que a põe a par das notícias dos ‘meninos’(entende-se família ausente). A sala e o resto da casa são o retrato fiel de um quatotidiano estetizado, resultante de uma praxis que opera  principios morais seculares introjectados e reiterados diariamente. ‘Limpinha’ diria um visitante de Santiago ou de São Vicente. O lençol impecavelmente esticado do divã exibe sobre o fundo claro um padrão repetitivo de círculos a um tempo colorido, discreto e lúdico. Nas quatro paredes, dispostas de forma ordeira, quase geométrica: impassíveis bonecas, posters de santos, duas bandeiras do clube de futebol New Castle e plantas trepadeiras que se esgueiram a pardir de decilitros de água depositados em lâmpadas recicladas. A estante exibe retratos e estatuetas de santos sobre uma renda de um branco-titânio impregnado pela passagem  vagarosa do tempo. A despeito da forte ventania lá fora e da imposição de um dia cinzento pela bruma seca tem-se a fresca sensação de um dia límpido e calmo.

Djô, o filho único, traja o macacão e sorriso habituais, que se diria serem a sua própria pele. Discorre sobre as recentes chuvas, sobre a ventania que levara consigo as flores dos feijões, sobre a proximidade da colheita da cana de açúcar  e, naturalmente, sobre a ‘votação’, afinal hoje é 6 de Fevereiro. O assunto não merece o entusiasmo do passado e aparece como uma espécie de brisa resultante da cauda de um ignorado furacão que passasse ao longe. Aliás, só o aborda para esclarecer que nunca votou e que não o pretende fazer no futuro porque não acredita que faça alguma diferença. Quanto mais não seja - diz ele- que  “a partir da segunda-feira quando passarem por nós na ribeira a única coisa  que nos darão é a fmaça” (entende-se o pó que se levanta com a passagem dos carros na estrada de terra batida), que “muitos desaparecerão em direcção à Praia (capital) para só voltarem daqui a  quatro anos”, que “ a simpatia com que hoje nos estendem a mão amanhã se transformará em indiferença porque nem um bom dia nos darão”.  A mim que me limito ao deleite do prazer indescritível da companhia da minha gente, para além da minha condição de agnóstico e de homem de parcas paixões que se circunscrevem no interstício do meu narcisismo, não entro no mérito do assunto mormente porque não carrego essas concepções falso-moralistas que impõe ‘deveres’ ou que surrupia direitos (não quero e esse é o meu dever e, consequentemente, continuo a usufruir plenamente de todos os meus direitos, principalmente, porque esses  precedem o  próprio ‘direito’ como dogma). Escusado será dizer que ‘tiaAninha’ vai as urnas e cumpre com seu dever a laia de quem vai a missa. Eu e Djô ficamos por aqui.

A imagem dos bêbados de aspecto miserável carregando desajeitadamente aquelas bandeiras enormes e das meninas pobres nas rotundas cumprindo uma espécie ‘dever’, das poucas imagens que vi da campanha eleitoral, porque por opção muito consciente e livre fechei os olhos e tapei os ouvidos, dizia, aquelas imagens não me saem da maldita memória. Esses 'objectos' continuarão vergonhosamente pobres nos próximos quatro ou quarenta anos, independentemente de quem vença as eleições, porque fazem parte da periferia da periferia (repetição propositado). Afinal, encarnamos esse estatuto com toda a leveza e alienação que nos são característicos, enquanto intelectuais e meia dúzia de políticos terceiromundista e de outros PDM’s vão desenhando discursos e engenhocas para negar esse maldito desígnio a favor dos povos e dos pobres. 

Aos olhos dos amigos que conhecem minhas ideias sou um utópico radical. Não aceito a pobreza para a qual a maioria dos cabo-verdianos vai sendo empurrada ano após ano, década após década. Não a considero um ‘fenómeno natural’ muito menos consequência da ausência de recursos naturais e do nosso ‘nível de desenvolvimento’. É o produto consequente de uma ideologia e de uma práxis bem determinada, de uma minoria igualmente determinada, que empurra, por opção, a maioria deste povo trabalhador para a condição de ‘periféricos’. A solução não está na escolha entre o partido A ou B mas na negação do ‘sistema’ em bloco. A ideologia que sustenta todos os partidos políticos em Cabo Verde para mim é maciça e indistinta e, sobretudo, nos nega como HOMENS. Super valoriza, por um lado, o falso sabichão, criando a aberração do intelectual-licenciado-demagogo-que-tudo-conhece e esparrama o 'loghos' verborreico e patético sobre nossos ouvidos, massageando o seu superego e, 'masturbando' sobre os palcos -em cima dos nossos cabelos crespos- sendo o único capacitado para gerir a 'massa burra' e, por outro, rejeita a ‘phronesis’ Aristotélica do homem comum (conhecimento resultante da experiência engendrada no dia-a-dia) ao mesmo tempo que reafirma e sublinha a sua inferioridade, a sua condição de ‘escravo moderno’ a quem se oferece graciosamente a alforria num enfadonho Domingo, de quatro-em-quatro-anos, através de uma pobre cruz, num miserável naco da papel. (Isso a despeito da Democracia vir a ser o único sistema digno apesar das imperfeições, quando for apreendido por nós e chegar por aqui, é claro). E, finalmente, quando temos a ilusão que se desenham trilhas escapatórias através da educação que permitiria aos pobres ‘depassarem’ o mecanismo alienador e regeitador, tudo se repete porque o próprio sistema cria o diplomado-analafabeto-iletrado, justificável a luz do falacioso argumento do português não ser a lingua-mãe, contornando o objecto para o ludibriar e rejeitar a partir de outro ângulo.

(..)

Sempre que puder virei aqui ver essa gente que, independentemente dos profundos laços afectivos  e de sangue que me prendem a eles, carregam consigo a grandiosa mensagem que ninguém vê, que ninguem ouve. Essa mensagem são eles mesmos. Construíram uma existência HUMANA do nada, da pedra-bruta (isto não é uma metáfora) quando nenhuma condição era favorável e nenhum meio existia, nem natural nem artificial. Fizeram aquilo que os verdadeiros homens fazem. Infelizmente esses estão em extinção. A maioria já vai poética e serenamente em direcção ao pôr-do-sol. Quiçá nossos filhos resgatem essa ambição sartreana: ‘nascer pessoa e construir-se homem, por opção, a partir da ética, única matéria-prima plausível para essa construção”. Para isso terão que nos negar a nós e seguir o exemplo de seus avós.

Furnas, 6 de Fevereiro de 2011.
Olavo da Luz
Terapeuta Ocupacional
Pós-graduando em Cinema e Audiovisuais

O PACTO CIVILIZATÓRIO




"...se, então, se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objecto sexual; se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença-, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida! É verdade que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os outros têm exactamente o mesmo desejo que eu (...). Assim, na realidade, só uma única pessoa poderia se tornar irrestritamente feliz(...)."
Sigmund Freud em 'O futuro de uma ilusão'