quarta-feira, 16 de março de 2011

Teodoro de Marcelino, cidadão anónimo

A Morte de um Artista...


Foto de Olavo da Luz: Vista de Lombo de Macário, onde residia Teodoro, apartir da casa dos meus pais.

Na semana passada morreu Teodoro de Marcelino, um cidadão anónimo, que na melhor das hipóteses fazia parte da lista de eleitores. Para mim, mais um dessa lista e, feliz ou infelismente de outras , Teodoro é hoje esse fino traço de saudade que atravessa meus ‘olhos grandes’ (expressão do Paulino) e deixa uma promessa de lágrimas e um suspiro de paixão. Revejo seus olhos pequenos e bonitos, sua voz firme e sua amabilidade paternal. Me arrependo de não ter saido do carro há duas semanas atrás para o abraçar em vez de me ter limitado a um aperto caloroso de mão. Ele e a esposa vinham da missa domingueira. Pelas minhas contas, apesar da altivez e firmeza de um jovem andava pelos seus 70 anos, embora o visse como uma espécie de homem imortal. Havia decidido que iria pedir que me fabricasse um tambor mas, não quis importuná-lo naquele momento e nem estragar o sabor daquele encontro fugaz e casual.

Teodoro é um desses homens que, sem heresia, poderia ter dito “eu sou o dono da vida, eu a criei”. Não o diria com o logos e nem por escassez deste, característica completamente avesso ao parlador homem de Santo Antão, mas com suas enormes mãos calejadas. No limite entre a morte e a criação, digo-o pela natureza da matéria-prima e da ferramenta, a balança de Teodoro pesou inconfundivelmente para a vida. Cesteiro exímio, tranformava o caniço e a sua faca afiada em vida, rítimo, harmonia, beleza. De tal forma que quem via seus balaios estilizados queria sempre um e, te-lo-ia a baixo custo, com a humildade e a presteza do Homem Santantonense. Visionário, transformou o balaio utilitário em souvenires que hoje saciam o imaginário de muitos andarilhos emigrantes pela Europa e pelas Américas. Sua tira de transagem era personalizado, mais fino, escolhido a dedo, sem mácula. O rítmo da sua transagem, tão bem bem balanciado, dir-se-ia uma toada de São Pedro saída do tambor que tocava com tamanha harmonia, alegria e sobriedade no recreio da sua arte de cesteiro, pelas múltiplas festas de romaria. Tambor esse que ele mesmo fabricava e coloria.

No pequeno mundo do vale de Chã de Pedras Teodoro de Marcelino é um artísta sobejamente conhecido. Sua obra faz parte da cultura visual do seu povo. Vejo-a claramente enquanto penso e escrevo. Autor dos incontáveis ‘Tambaques’ repletos de espigas multicolores dos anos de fartura, que encimam quase todas as casas do vale e que transbordam para as outras ribeiras, dos Balaios grandes e pequenos que transportam e transportaram durante décadas a cheirosa cachupa guisada, o peixe frito, o aromático café de Fajã dos Bois, a batata assada saída dos calor dos alambiques, o cheiroso grogue de cana sacarina e tantos outros aromas e cores, destinados aos rústicos e sacrificados homens das lavouras. Autor de centenas de Bandejas, irmãs gémeas do pilão, que nas tardes remotas ritma de forma nostálgica e quase silenciosa a separação do farelo, aprumando o milho e a farinha para a cachupa diária e para o fumegante cuscus. Permeando esses prazeirosos sutentáculos da vida dos briosos Homens dos místicos vales de Santo Antão, lá estão sempre essas mãos aparentemente calejadas, porém de uma suavidade e de uma finesa propícias a melhor e mais deliciosa carícia.

No entanto, a arte e a mestria de Teodoro de Marcelino foi soterrado com ele. Tal como tantos outros construtores da vida e das história deste país, ninguem apreendeu e ninguem registou os seus conhecimentos, lamentavelmente.

Quanto a mim, para além das saudades carrego comigo essa teimosia: “vou ter um tambor com a tua assinatura, Teodoro de Marcelino” e , então, dar-te-ei o abraço que, naquele dia, te soneguei por mera distração.

Um grande beijo, meu irmão.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Mais uma noite...



O cansaço e aquela ausência, de certo modo incompreensível, reforçavam seu sentimento de desamparo. Sem rumo certo saiu a procura de um lenitivo que lhe pudesse apontar uma bela descida ao vale de morfeu. Instintivamente esquivara-se do lugar comum. O vinho estava fora de cogitação. Ainda pegou o telefone e pensou na mulher mais disponível, que o receberia sem muitos rodeios. Sorriu e jogou o aparelho no porta-luvas. Havia meses que fazia esse mesmo gesto seguido do mesmo sorriso. Tal como outrora, tentou encontrar na sua memória uma imagem consoladora entre as muitas paixões e aventuras amorosas que vivera. Mas nada disso fazia mais sentido. Havia arrumado cada paixão, cada romance, cada mulher bonita, cada noite de sonho, cada promessa em caixinhas/quadrados estanques, hermeticamente fechados, que guardava como um tabu em lado incerto do seu coração.

A meia-lua com bicos apontados para o céu, pachorentemente posicionada rente a montanha, ao meio da ilha de Santo Antão, compondo um belo quadro de contrastes indescritíveis, lhe apontava um rumo. Seria uma Afrodite ou  sósia sua que o convocava para prosa incerta. Limitado pela sua condição de ilhéu, que ora constituia de certo modo uma vantagem, Léo desvencilhou-se da cidade e, minutos depois estava a sós com as pacíficas silhuetas negras das montanhas. Inadvertidamente, uma breve e parca lágrima rolara do canto do seu olho direito. Pensou: há de ser da brisa. Suspirou e, como um voice over num black screen escrevera com a a sua potente e embaçada voz interior:

Quisera amiga que cá estivesses. Não precisavas estar perto. Bastava que estivesses viva, que a imagem consoladora da tua mão penetrando suavemente a carne dolorida do meu peito, massageando esse meu coração que te comoveu, para que a solidão assumisse a sua condição natural e pudesse somar inconscientemente mais um dia à minha existência. No entanto, teimas com essa mão inerte sob essa face lívida como se tua vida, humana que fora, fosse apenas paz. Estivesses aqui, digo algures, falar-te-ia, ouvisses ou não, das lágrimas verdadeiras que chorei por uma mulher na calada da noite. Eu que, como bem sabes, guardo séculos de lágrimas nas fibras contraídas das minhas têmporas. Pois, veja que chorei e solucei de felicidade por ter visto, creio eu, a felicidade no rosto de uma amiga. Ou teria chorado por mim? Eu que ainda não chorei por ti. Ou talvez o tenha feito sem que o saiba. Ficarias contente em saber dos meus recentes desamores e dos meus mais recentes pesadelos nocturnos, não pela minha infelicidade, mas pela confiança que te dedico. Tenho me consolado com a voz do mar. Não recordo ter-te confidenciado essa minha excentricidade banal. De qualquer modo a lua sumiu e, na imensidão de estrelas, nesse imprevisto céu de Março, acredito ter-te visto brilhar no céu. Por isso me calo...’

Soprava uma fresca brisa no alto da montanha. No rádio uma voz masculina entoava doce e ironicamente ‘love me tender…’Como pano de fundo ouvia-se o barulho do motor, uma sinfonia suave de grilos na noite e o assoviu da brisa que se impunha pela fresta do vidro ligeiramente aberto. Santo Antão cobrira seu quarto-crescente com um manto negro. No céu, supostamente azul, um mar infinito de estrelas cintilavam. Como cintilavam e transmitiam uma estranha e imensa calma. Na alma do homem uma ligeira cicatriz e aquele anseio repentino e insaciável de estrada. Sorriu e pensou "há de ser apenas mais uma noite"…

Olavo da Luz