quarta-feira, 22 de junho de 2011

A Dangerous Method(2011) - Um filme de David Cronenberg (Canadense)




SINOPSE



O filme é baseado na peça “The Talking Cure”, escrita por Christopher Hampton, autor da peça “Ligações Perigosas” e vencedor do oscar pelo roteiro do filme homônimo baseado na peça. Assim como em “Ligações”, Hampton também adaptou sua própria peça, que conta a história real do rompimento das relações entre Sigmund Freud e Carl Jung, os dois maiores nomes da psicanálise clássica.

Seduzido pelo desafio de um caso impossível, o determinado Dr. Jung decide tratar da perturbada, porém bela, Sabina Spielrein. Usando o método do seu mestre, o renomado Freud, Jung acaba se envolvendo com Sabina, e quando Freud também cai aos encantos de Sabina, a relação dos dois pode sofrer um abalo definitivo. http://prsteyer.blogspot.com/2011/06/filme-dangerous-method-2011.html


Ficha Técnica


Título Original: A Dangerous Method
País de Origem: Reino Unido / França / Alemanha / Canadá / Suíça
Gênero: Drama
Ano de Lançamento: 2011
Direção: David Cronenberg
Guião/Roteiro: Christopher Hampton
Música Original: Howard Shore
Direção de Fotografia: Peter Suschitzky
Montador: Ronald Sanders
Casting: Deirdre Bowen
Direção de Arte: James McAteer, Anja Fromm, Nina Hirschberg , Frances Soeder, Sebastian Soukup Cenário: Gernot Thöndel
Figurinos: Denise Cronenberg




segunda-feira, 20 de junho de 2011

FILMANDO EM SANTO ANTÃO

Uma aventura 'gostosa'no majestoso vale do Paúl

Uma aventura cansativa mas agradável, uma jornada de 12 horas seguidas de trabalho. Trata-se do inicio da produção de um guião/roteiro de um documentário do director Estevão Filimão, o qual tive a honra de ser o produtor local. Um projecto que ainda anda...virá mais...por enquanto ficam as fotografias do making off. A equipa é formada por ex-alunos do curso de especialização em cinema, do M_EIA, Escola Internacional de Artes, de Mindelo.
















OL

sexta-feira, 17 de junho de 2011

EUTANÁSIA: A SAGA DO CINEMA EM CABO VERDE



A morte por eutanásia do Cinema Eden Park ainda vai dar pano para muitos e múltiplos discursos. Será inequivocamente mote de cobrança e condenação das gerações futuras, em relação a nossa ignorância no presente. Ignorância essa que resulta não da nossa 'baixeza' de QI, mas da escassez de senso e, da consequente 'miopia'. Andamos essas décadas pós-independência a peneirar a farinha para comer o farelo,  não por acção directa do povo, que é inteligente e batalhador mas, pela nossa incapacidade de construir lideranças positivas no domínio da gestão pública. Sobrou-nos o pudor em relação a participação política e a intervenção cívica e, uma elite 'política' francamente miserável em termos de conteúdo intelectual e de paradigmas. Sobrou-nos os "prados", maioritariamente cinzentos a imitar o cinzento das nossas urbes, ambos consumidos de modo alienado e patético e, os gangs e taxistas a aterrorizar as pessoas, pela sua impossibilidade de comunicação e de produções positivas. Infelizmente, ainda há muitos ignorantes que têm a certeza que é pelo estômago que o ser humano sobrevive,  enquanto o que nos empurram guela abaixo é aço, betão e alcatrão. Mas, morre-se de fome. Fome de nutrientes 'no céu da boca' e no âmago da (in)existência.

Mas, a eutanásia do Eden Park é a ponta do iceberg do acto ignotrante de apagar um século de história do cinema em Cabo Verde, incluindo todo o património imaterial que se construiu a sua volta. Uma história que acampanhou em tempo real o nascimento do cinema no mundo, com os irmãos Lumière, seu cinematógrafo e respectiva  fábrica de onde se engendrou um projector que mal saia da cabeça de 'um engenheiro' já estava em Mindelo.

Depois da batalha inglória dos mindelenses, que mais pareceu um pesadelo, pois ninguém viu seus acenos desesperados, é pelo olhar do cineasta portugês Daniel Blaufuks que essa morte mais uma de múltiplas vezes nos entra na alma. http://noticias.sapo.cv/vida/noticias/artigo/1153386.html.

Blaufuks já ganha prémios com 'seu olhar' sobre essa "memória em vias de desaparecimento", como ele mesmo sentencia. Vale a pela dar uma espreitadela no trailler, no link em cima.

OL

quarta-feira, 15 de junho de 2011

QUALQUER VALIOSA COISA


                                                       Painting by Mien (http://redredday.blogspot.com/)


Qualquer valiosa coisa

O que fazer
Quando quero fazer
E não sei o que fazer?
__ Fazer uma canção!


O que dizer
Quando quero dizer
E não sei o que dizer?
__ Dizer um poema!


Leve, breve.
Breve, longo.


E que lembre, de janeiro
A janeiro, a sangue e fogo,
Desesperadamente,
Qualquer valiosa coisa
Do chileno Pablo Neruda.

Pedro Ramúcio

terça-feira, 14 de junho de 2011

OLHARES ÍNTIMOS

                                                                                                   Memórias de Baco I

                                                                                         Memórias de BacoII

                                                                                                 Memórias de BacoIII

                                                                                                        Rosa de Adónis

                                                                                                    O lar dos homens I

                                                                                                   O lar dos homens II


                                                                                                   A síntese da Alma I

 



segunda-feira, 13 de junho de 2011

ANIVERSÁRIO DE FERNANDO PESSOA

Um dos maiores poetas de sempre..."Não tenhas nada nas mãos" assinado com o heterónimo de Ricardo Reis é um dos meus preferidos. É o epitáfio perfeito para ele e o que queria para mim também.

Fernando Pessoa (13 Junho 1988 - 30 Novembro 1935)

Não tenhas nada nas mãos(1)

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.


Fernando Pessoa, 1914

quarta-feira, 8 de junho de 2011

CINEMA EDEN PARK (1922-2007)










ENTRE LINHAS

Ainda adolescente, nas férias de verão em Santo Antão, entre uma paixão e outra, devorava jornais velhos, almanaques, os livros de banda desenhada que andávamos as trocas desde fedelhos, os livros amarelecidos do meu pai que surripiava escondido da minha mãe e os romances “Júlia” e “Maria” da minha irmã, que ela lia as escondidas e que me emprestava fingindo-se aborrecida. Aos quinze anos não sei porque ‘cargas de água’ comprara numa feira de livros a obra ‘Três Ensaios sobre a teoria da Sexualidade’ de Sigmund Freud e outros dois livros de psicanálise, que eram uma espécie de leituras de alguns aspectos das teorias dele. Nem adianta dizer que não entendi patavina dessas últimas leituras, apesar da avidez com que as devorei, de cenho franzido e com um enorme dicionário a frente. O certo é que abriram meu apetite pelos livros e contribuíram para melhorar meu desempenho na língua portuguesa. Como prémio ganhei elogios da bonita professora de português quando, campónio, fui estudar a Mindelo. Continuo com o mesmo apetite. Hoje meus gostos são selectos. Existem muitos livros que abro e abandono. Os jornais há já dez anos que não os leio, nem os impressos, nem os modernos on line. Também não vejo telejornais. Quando sinto aquela vontade incontrolável de me actualizar (de estar a par do sangue derramado e da política, com a devida perdão pelo pleonasmo) vejo cerca de dois minutos e meio da novela das oito, sendo que nos um minuto e meio finais já sou um viajante do vale de Morfeu. Pena não poder espreitar in locus o clube de livros http://obviousmag.org/archives/2010/11/naked_girls_reading.html mas, na cota de ignorância que a mim me toca vou devorando  uma suposta ‘boa leitura’. É, assim, na verdade,  que me mantenho devidamente informado...lendo Kafka!
1.       Li, duas vezes seguidas, em menos de 24 horas O Vendedor de tempo, de Fernando de Bes (2005).


Sinopse
O Vendedor de Tempo é uma fábula satírica sobre a sociedade de consumo e sobre a alienação humana derivada do sistema capitalista de produção, que pode engendrar tanto pólos de liberdade como de aprisionamento, se permitirmos que o SISTEMA assuma o controlo das nossas vida e do nosso TEMPO e, nos cristalize em padrões alienadores e destrutivos. Uma leitura agradável e fácil.

"Era uma vez um tipo comum que vivia num sítio aleatório, num andar comum, com uma hipoteca para toda a vida. Nada fora do normal. Salvo por um entusiasmo de juventude, quiçá uma obsessão: o estudo do sistema reprodutivo das formigas de cabeça vermelha, entusiasmo esse a que não se podia dedicar por falta de tempo e que com o passar dos anos acabaria por ser... uma verdadeira bomba-relógio! Este é o protagonista da nossa história, um cidadão anónimo que, com uma ideia de negócio irracional em que ninguém acredita, põe em cheque a sociedade de consumo". (Fernando de Bes)

2.    Crime e castigo, 1866 um clássico da literatura universal magistralmente construído por um dos maiores romancistas de todos os tempos: Fiódor Dostoiévski (1821-1881).

Sinopse
Raskólnikov é um ex-estudante de Direito, extremamente pobre e angustiado que  quer fazer 'algo' e tornar-se 'alguém'. Num artigo supostamente científico classifica os homens em ordinários e extraordinários, numa tentativa de justificar acções em prol do desenvolvimento da humanidade. Mergulhado numa angústia profunda e doentia, numa mistura entre um desvario psicopático e um idealismo niilista, ele planeja e mata a machadada uma velha agiota. A contragosto assassina também a irmã desta, que vira acidentalmente o cadáver no chão. Isto porque o protagonista, por um descuido, para ele próprio incompreensível, esqueceu-se de fechar a porta do apartamento da velha. Rouba moedas e jóias dos quais não faz uso nenhum e perambula delirante pelas ruas de Petersburgo. A partir de então desencadeia-se um drama interno de profundo sofrimento, arrependimento, angústia e punição…em torno do qual se configuram histórias igualmente dramáticas de personagens com existências destroçadas pela miséria e pela dor, numa viagem magistral ao mundo interno dos mesmos.

3.      O processo. Franz Kafka, 1925.

      Adoro as obras de Franz Kafka (1883-1924) porque poderiam e são reescritas em 2011. Se qualquer um de nós for ao palácio do governo, ao parlamento, ao palácio da justiça, ao tribunal, à procuradoria da república, à câmara municipal, a polícia judiciária, ao cartório ou à qualquer repartição pública tratar de um assunto qualquer e, pudermos, com maestria descrever essa saga e seus personagens, então, seremos a encarnação perfeita do escritor Franz Kafka. Li O Castelo há dez anos atrás e há dois meses reli o O Processo. Quando puder irei ler e reler toda a obra de Kafka e a recomendo. Temos a imensa sorte que os desejos desse escritor tivessem sido frontalmente violados, isto é, que suas obras não fossem publicadas mas sim queimadas após a sua morte.


      Sinopse
     Josef K. acorda de manhã a ser interrogado e acusado sem saber como, por quem, nem porquê. Apanhado no turbilhão incompreensível, burocrático e patético do sistema judicial não consegue nem condenação, nem inocência. Torna-se prisioneiro da impossibilidade e do absurdo. Não se sabe como funcionam os tribunais, os advogados são inúteis, os magistrados ‘crianças mimadas e rabugentas’, os funcionários corruptos. A certa altura do trama Josef K. que arrasta sua vida pelos corredores intermináveis dos ‘tribunais’ começa e duvidar da sua própria inocência. A ausência de desdobramento do seu processo se encontra envolto em burocracias e secretismos. A defesa é impossível porque a acusação em si já é uma sentença. ‘A inocência verdadeira não existe’. A inocência parcial realiza-se à custa do adiamento do julgamento e da corrupção. O romance é uma crítica metafórica aos mecanismos jurídicos, dogmáticos, obscuros, incompreensíveis e inacessíveis para a grande maioria dos cidadãos.

(continua...)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Veredas da arte

Charlie Kaufman, roteirista e realizador, uma feliz descoberta para mim...

Synecdoche, NY


Adaptation


Human nature

quarta-feira, 16 de março de 2011

Teodoro de Marcelino, cidadão anónimo

A Morte de um Artista...


Foto de Olavo da Luz: Vista de Lombo de Macário, onde residia Teodoro, apartir da casa dos meus pais.

Na semana passada morreu Teodoro de Marcelino, um cidadão anónimo, que na melhor das hipóteses fazia parte da lista de eleitores. Para mim, mais um dessa lista e, feliz ou infelismente de outras , Teodoro é hoje esse fino traço de saudade que atravessa meus ‘olhos grandes’ (expressão do Paulino) e deixa uma promessa de lágrimas e um suspiro de paixão. Revejo seus olhos pequenos e bonitos, sua voz firme e sua amabilidade paternal. Me arrependo de não ter saido do carro há duas semanas atrás para o abraçar em vez de me ter limitado a um aperto caloroso de mão. Ele e a esposa vinham da missa domingueira. Pelas minhas contas, apesar da altivez e firmeza de um jovem andava pelos seus 70 anos, embora o visse como uma espécie de homem imortal. Havia decidido que iria pedir que me fabricasse um tambor mas, não quis importuná-lo naquele momento e nem estragar o sabor daquele encontro fugaz e casual.

Teodoro é um desses homens que, sem heresia, poderia ter dito “eu sou o dono da vida, eu a criei”. Não o diria com o logos e nem por escassez deste, característica completamente avesso ao parlador homem de Santo Antão, mas com suas enormes mãos calejadas. No limite entre a morte e a criação, digo-o pela natureza da matéria-prima e da ferramenta, a balança de Teodoro pesou inconfundivelmente para a vida. Cesteiro exímio, tranformava o caniço e a sua faca afiada em vida, rítimo, harmonia, beleza. De tal forma que quem via seus balaios estilizados queria sempre um e, te-lo-ia a baixo custo, com a humildade e a presteza do Homem Santantonense. Visionário, transformou o balaio utilitário em souvenires que hoje saciam o imaginário de muitos andarilhos emigrantes pela Europa e pelas Américas. Sua tira de transagem era personalizado, mais fino, escolhido a dedo, sem mácula. O rítmo da sua transagem, tão bem bem balanciado, dir-se-ia uma toada de São Pedro saída do tambor que tocava com tamanha harmonia, alegria e sobriedade no recreio da sua arte de cesteiro, pelas múltiplas festas de romaria. Tambor esse que ele mesmo fabricava e coloria.

No pequeno mundo do vale de Chã de Pedras Teodoro de Marcelino é um artísta sobejamente conhecido. Sua obra faz parte da cultura visual do seu povo. Vejo-a claramente enquanto penso e escrevo. Autor dos incontáveis ‘Tambaques’ repletos de espigas multicolores dos anos de fartura, que encimam quase todas as casas do vale e que transbordam para as outras ribeiras, dos Balaios grandes e pequenos que transportam e transportaram durante décadas a cheirosa cachupa guisada, o peixe frito, o aromático café de Fajã dos Bois, a batata assada saída dos calor dos alambiques, o cheiroso grogue de cana sacarina e tantos outros aromas e cores, destinados aos rústicos e sacrificados homens das lavouras. Autor de centenas de Bandejas, irmãs gémeas do pilão, que nas tardes remotas ritma de forma nostálgica e quase silenciosa a separação do farelo, aprumando o milho e a farinha para a cachupa diária e para o fumegante cuscus. Permeando esses prazeirosos sutentáculos da vida dos briosos Homens dos místicos vales de Santo Antão, lá estão sempre essas mãos aparentemente calejadas, porém de uma suavidade e de uma finesa propícias a melhor e mais deliciosa carícia.

No entanto, a arte e a mestria de Teodoro de Marcelino foi soterrado com ele. Tal como tantos outros construtores da vida e das história deste país, ninguem apreendeu e ninguem registou os seus conhecimentos, lamentavelmente.

Quanto a mim, para além das saudades carrego comigo essa teimosia: “vou ter um tambor com a tua assinatura, Teodoro de Marcelino” e , então, dar-te-ei o abraço que, naquele dia, te soneguei por mera distração.

Um grande beijo, meu irmão.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Mais uma noite...



O cansaço e aquela ausência, de certo modo incompreensível, reforçavam seu sentimento de desamparo. Sem rumo certo saiu a procura de um lenitivo que lhe pudesse apontar uma bela descida ao vale de morfeu. Instintivamente esquivara-se do lugar comum. O vinho estava fora de cogitação. Ainda pegou o telefone e pensou na mulher mais disponível, que o receberia sem muitos rodeios. Sorriu e jogou o aparelho no porta-luvas. Havia meses que fazia esse mesmo gesto seguido do mesmo sorriso. Tal como outrora, tentou encontrar na sua memória uma imagem consoladora entre as muitas paixões e aventuras amorosas que vivera. Mas nada disso fazia mais sentido. Havia arrumado cada paixão, cada romance, cada mulher bonita, cada noite de sonho, cada promessa em caixinhas/quadrados estanques, hermeticamente fechados, que guardava como um tabu em lado incerto do seu coração.

A meia-lua com bicos apontados para o céu, pachorentemente posicionada rente a montanha, ao meio da ilha de Santo Antão, compondo um belo quadro de contrastes indescritíveis, lhe apontava um rumo. Seria uma Afrodite ou  sósia sua que o convocava para prosa incerta. Limitado pela sua condição de ilhéu, que ora constituia de certo modo uma vantagem, Léo desvencilhou-se da cidade e, minutos depois estava a sós com as pacíficas silhuetas negras das montanhas. Inadvertidamente, uma breve e parca lágrima rolara do canto do seu olho direito. Pensou: há de ser da brisa. Suspirou e, como um voice over num black screen escrevera com a a sua potente e embaçada voz interior:

Quisera amiga que cá estivesses. Não precisavas estar perto. Bastava que estivesses viva, que a imagem consoladora da tua mão penetrando suavemente a carne dolorida do meu peito, massageando esse meu coração que te comoveu, para que a solidão assumisse a sua condição natural e pudesse somar inconscientemente mais um dia à minha existência. No entanto, teimas com essa mão inerte sob essa face lívida como se tua vida, humana que fora, fosse apenas paz. Estivesses aqui, digo algures, falar-te-ia, ouvisses ou não, das lágrimas verdadeiras que chorei por uma mulher na calada da noite. Eu que, como bem sabes, guardo séculos de lágrimas nas fibras contraídas das minhas têmporas. Pois, veja que chorei e solucei de felicidade por ter visto, creio eu, a felicidade no rosto de uma amiga. Ou teria chorado por mim? Eu que ainda não chorei por ti. Ou talvez o tenha feito sem que o saiba. Ficarias contente em saber dos meus recentes desamores e dos meus mais recentes pesadelos nocturnos, não pela minha infelicidade, mas pela confiança que te dedico. Tenho me consolado com a voz do mar. Não recordo ter-te confidenciado essa minha excentricidade banal. De qualquer modo a lua sumiu e, na imensidão de estrelas, nesse imprevisto céu de Março, acredito ter-te visto brilhar no céu. Por isso me calo...’

Soprava uma fresca brisa no alto da montanha. No rádio uma voz masculina entoava doce e ironicamente ‘love me tender…’Como pano de fundo ouvia-se o barulho do motor, uma sinfonia suave de grilos na noite e o assoviu da brisa que se impunha pela fresta do vidro ligeiramente aberto. Santo Antão cobrira seu quarto-crescente com um manto negro. No céu, supostamente azul, um mar infinito de estrelas cintilavam. Como cintilavam e transmitiam uma estranha e imensa calma. Na alma do homem uma ligeira cicatriz e aquele anseio repentino e insaciável de estrada. Sorriu e pensou "há de ser apenas mais uma noite"…

Olavo da Luz

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

REALIZAÇÃO E VIOLÊNCIA SIMBÓLICAS




As condições constitucionais que a natureza ofereceu ao ser humano, nomeadamente, o tamanho do cérebro, a linguagem e as emoções permitiram ao animal-homem alçar vôos jamais sonhados pelos seus antepassados. A pessoa humana não se limita a usufuir-se do mundo natural. Ele cria literalmente uma multiplicidade de mundos. Num processo dinâmico e dialético, ao criar ele recria a si próprio continuamente, de tal forma que podemos afirmar que no domínio humano nada mais é natural.

Porém, a revelia das suas fantasias e dissociações, das capacidades infinitas resultantes da inteligência, da intuição e dos afetos, a pessoa humana continua a ser um animal. Um animal muito frágil e, sobretudo, um animal consciente da sua inefável finitude, da sua morte. Como se tal não bastasse, a sua sobrevivência depende do tal ‘pacto civilizatório’ que o obriga a prescidir-se de grande parte dos seus desejos, resultantes dos seus instintos primários (o agressivo e o sexual), para que possa viver em sociedade e sobreviver fisica e existencialmente.

É nesse processo dialético do fazer e do fazer-se que nasce a cultura, essa caldeirada de produções intelectuais, de religiões, de artefactos, de ideossincrasias...É nesse turbilhão estetizado que a pessoa humana se eterniza. Então setenta anos de vida parece uma eternidade. Nesse intervalo insignificante, a dimensão do cosmo, ele ama e odeia, vive dores que beiram o insuportável, procria filhos e obras, descobre a insignificância e a grandeza da vida, troca as voltas ao inferno e ao céu e, decobre a irremediável solidão para além de todos os romantismos. Nesse jogo frenético, muitas vezes incompreensível, dribla o monstro indomável chamado natureza, engoda e contradiz habilmente a sociedade que já estava ‘pronta’ ao nascer, encontrando por esta via canais de satisfação de desejos íntimos, acessando uma liberdade que jamais conseguiria de forma aberta. Realiza desejos ‘incivilizados’ por vias civilizadas. Mata e morre sem matar nem morrer, perpetuando a raça a revelia dos seus instintos.

A cultura não é apenas importante para o homem. O homem é cultura. Ao subtrair a cultura da vida humana a pessoa torna-se um animal banal como outro qualquer. Portanto, promover a cultura é promover o homem. É uma praxis humanista. Não promover a cultura é negar a existência humana, reduzindo o homem à condição de animal de capoeira.

Em Cabo Verde temos deparado com um conceito pobre e ignorante de cultura. Prevalege o pré-conceito de cultura/lazer. Esse engodo vem da ilusão de que um espectador, por exemplo, vai ao teatro ou ao cinema para se divertir. Pura ilusão. O espectador pouco tem de espectador. Ele participa emocional e activamente do trama. Ao se identificar com os personagens ele mata e morre, penetra e é penetrado, ama e odeia. Revive num nível irreconhecível, para ele e para nós, eventos importantes da sua vida psíquica. Escancara e sara feridas, se emociona, ganha e perde no espaço confinado de uma sala escura de cinema ou de teatro. E, irritado, introspectivo, apaziguado ou de lágrimas ressequidas num rosto iluminado saí para a brisa da noite menos animal e mais humano, mais civilizado, mais saudável, mais aberto para potenciar o amor e lidar com a sua agressividade e com a sua sexualidade. Mais apto para ampliar o campo do ‘instinto da vida’ e contrariar o ‘instinto da morte’, que lutam incessantemente lá no mais fundo do seu ser. Ilude-se quem pensa que os o risos arrancados pelas cenas de uma comédia são apenas tiradas ilariantes de um dom cómico. Atrás de toda comédia esconde-se uma inimaginável agressividade, sublimada, disfarsada e descarregada fisicamente através do riso.

Falo das artes cénicas a título de exemplo e das artes em geral como elementos culturais, mas poderia falar da pintura, da dança, da música, da arquitectura, da ciência, da religião.

Um político que conseguisse entender a função da cultura na existência humana não hesitaria em colocar esse sector no centro dos seus projectos. Assim fazendo, a sociedade que ele lidera teria mais saúde, melhor educação, melhor produtividade e criatividade, melhor sociabilidade, menos violência, mais ética, mais justiça. Não é e não será esse o nosso caso. O máximo que conseguimos até hoje é o discurso patético e alienado da promoção da ‘industria cultural’. Este discurso nada mais é que uma forma polida de disfarsar, com um sorriso amarelo, o projecto de não investir no sector. Essa idéia da ‘industria cultural’ muito mensionada nas últimas campanhas eleitorais pelos dois líderes dos nosso maiores partidos políticos, traduz-se na concepção que insinua que ‘se não podes oferecer rosas frescas, supostamente por problemas climáticos e/ou financeiros, ofereça rosas de plástico made in china´ porque afinal estamos numa era industrial e de primazia incontornável do capital sobre a pessoa humana.

O que esses líderes não entendem é que investem milhares de contos a tratar doenças que não existem, somatizações da infelicidade humana. Que nos ambulatórios de Santo Antão à Brava os médicos dedicam horas a consultar pessoas que de doença física nada têm, no entanto, prescrevem drogas e análises clínicas caríssimos que saem dos cofres públicos. Que esses mesmos pacientes preregrinam de médico em médico a procura de um desesperado viés para fugir a angústia advinda da ausência de meios de realização simbólica. Que ‘o novo alcoolismo’, que muitas doenças psicossomáticas graves, incapacitantes ou mortais são produtos da infelicidade humana que favorece o ‘instinto da morte’, a desistência da vida, o suicídio disfarsado.

Não entendem que a violência que graça nos centros urbanos, que nos constrange e terrorrifica, e para a qual não têm nenhuma solução a vista, para além dos dorminhocos guardas guineeses, é o produto óbvio e linear dessa mesma carestia de meios de realização simbólica, de sublimação, de canalização e ressignificação dos instintos agressivo e sexual, que são fenómenos humanos e naturais. Que essa violência resulta do compreensível ‘mal estar na civilização’, mas que é anti-civilização. Rasga o pacto civilizatório. Mas também que, a despeito de ser destituido de ética, é a reacção mais saudável e coerente dos cabo-verdinaos nas últimas três décadas. Porque violência gera violência. E é o próprio estado que despoleta essa violência através das suas políticas e prácticas carregadas de violência simbólica e de acuamento. Que a reacção desses jovens, oriundos das periferias era absolutamente previsível, mas agora nos discursos aparece, por ignorância ou por hipocresia, como um ‘fenómeno novo e imprevisível’.

O que que não investimos na promoção cultura, na promoção do homem caboverdiano investimos e invetiremos em quadriplicado nos sectores da saúde, da segurança, da segurança social mas, sobretudo, pagaremos um preço incalculável através do terrorismo que nos invade ao enfiar nervosamente a chave na porta da nossa casa e na sensação vaga e desconfortável de infelicidade que percorre o coração de muitas pessoas de norte a sul deste país, que mais tarde ou mais cedo se tranformará em auto ou hetero agressividade, restando-nos como únicas saídas matar ou morrer, como se a morte de um homem tivesse alguma importância e, pior, com custos financeiros e sociais tão elevados, que configuram um luxo supérfulo de uma sociedade extremamente rica.

Olavo da Luz
Terapeuta Ocupacional

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

AS PERIFERIAS DA VIDA



Escrevi este texto há cerca de três semanas atrás. Depois desisti dele. Porém ,relendo-o resolvi publica-lo a revelia do seu enquadramento no tempo...aí está: 

'A seguir aos cumprimentos habituais ‘tiaAninha’ prossegue habilmente seus arremendos com a fineza imperturbável do alto do pedestal da sua ‘visão’ octogenária. Simpaticamente vai me fazendo as perguntas que a põe a par das notícias dos ‘meninos’(entende-se família ausente). A sala e o resto da casa são o retrato fiel de um quatotidiano estetizado, resultante de uma praxis que opera  principios morais seculares introjectados e reiterados diariamente. ‘Limpinha’ diria um visitante de Santiago ou de São Vicente. O lençol impecavelmente esticado do divã exibe sobre o fundo claro um padrão repetitivo de círculos a um tempo colorido, discreto e lúdico. Nas quatro paredes, dispostas de forma ordeira, quase geométrica: impassíveis bonecas, posters de santos, duas bandeiras do clube de futebol New Castle e plantas trepadeiras que se esgueiram a pardir de decilitros de água depositados em lâmpadas recicladas. A estante exibe retratos e estatuetas de santos sobre uma renda de um branco-titânio impregnado pela passagem  vagarosa do tempo. A despeito da forte ventania lá fora e da imposição de um dia cinzento pela bruma seca tem-se a fresca sensação de um dia límpido e calmo.

Djô, o filho único, traja o macacão e sorriso habituais, que se diria serem a sua própria pele. Discorre sobre as recentes chuvas, sobre a ventania que levara consigo as flores dos feijões, sobre a proximidade da colheita da cana de açúcar  e, naturalmente, sobre a ‘votação’, afinal hoje é 6 de Fevereiro. O assunto não merece o entusiasmo do passado e aparece como uma espécie de brisa resultante da cauda de um ignorado furacão que passasse ao longe. Aliás, só o aborda para esclarecer que nunca votou e que não o pretende fazer no futuro porque não acredita que faça alguma diferença. Quanto mais não seja - diz ele- que  “a partir da segunda-feira quando passarem por nós na ribeira a única coisa  que nos darão é a fmaça” (entende-se o pó que se levanta com a passagem dos carros na estrada de terra batida), que “muitos desaparecerão em direcção à Praia (capital) para só voltarem daqui a  quatro anos”, que “ a simpatia com que hoje nos estendem a mão amanhã se transformará em indiferença porque nem um bom dia nos darão”.  A mim que me limito ao deleite do prazer indescritível da companhia da minha gente, para além da minha condição de agnóstico e de homem de parcas paixões que se circunscrevem no interstício do meu narcisismo, não entro no mérito do assunto mormente porque não carrego essas concepções falso-moralistas que impõe ‘deveres’ ou que surrupia direitos (não quero e esse é o meu dever e, consequentemente, continuo a usufruir plenamente de todos os meus direitos, principalmente, porque esses  precedem o  próprio ‘direito’ como dogma). Escusado será dizer que ‘tiaAninha’ vai as urnas e cumpre com seu dever a laia de quem vai a missa. Eu e Djô ficamos por aqui.

A imagem dos bêbados de aspecto miserável carregando desajeitadamente aquelas bandeiras enormes e das meninas pobres nas rotundas cumprindo uma espécie ‘dever’, das poucas imagens que vi da campanha eleitoral, porque por opção muito consciente e livre fechei os olhos e tapei os ouvidos, dizia, aquelas imagens não me saem da maldita memória. Esses 'objectos' continuarão vergonhosamente pobres nos próximos quatro ou quarenta anos, independentemente de quem vença as eleições, porque fazem parte da periferia da periferia (repetição propositado). Afinal, encarnamos esse estatuto com toda a leveza e alienação que nos são característicos, enquanto intelectuais e meia dúzia de políticos terceiromundista e de outros PDM’s vão desenhando discursos e engenhocas para negar esse maldito desígnio a favor dos povos e dos pobres. 

Aos olhos dos amigos que conhecem minhas ideias sou um utópico radical. Não aceito a pobreza para a qual a maioria dos cabo-verdianos vai sendo empurrada ano após ano, década após década. Não a considero um ‘fenómeno natural’ muito menos consequência da ausência de recursos naturais e do nosso ‘nível de desenvolvimento’. É o produto consequente de uma ideologia e de uma práxis bem determinada, de uma minoria igualmente determinada, que empurra, por opção, a maioria deste povo trabalhador para a condição de ‘periféricos’. A solução não está na escolha entre o partido A ou B mas na negação do ‘sistema’ em bloco. A ideologia que sustenta todos os partidos políticos em Cabo Verde para mim é maciça e indistinta e, sobretudo, nos nega como HOMENS. Super valoriza, por um lado, o falso sabichão, criando a aberração do intelectual-licenciado-demagogo-que-tudo-conhece e esparrama o 'loghos' verborreico e patético sobre nossos ouvidos, massageando o seu superego e, 'masturbando' sobre os palcos -em cima dos nossos cabelos crespos- sendo o único capacitado para gerir a 'massa burra' e, por outro, rejeita a ‘phronesis’ Aristotélica do homem comum (conhecimento resultante da experiência engendrada no dia-a-dia) ao mesmo tempo que reafirma e sublinha a sua inferioridade, a sua condição de ‘escravo moderno’ a quem se oferece graciosamente a alforria num enfadonho Domingo, de quatro-em-quatro-anos, através de uma pobre cruz, num miserável naco da papel. (Isso a despeito da Democracia vir a ser o único sistema digno apesar das imperfeições, quando for apreendido por nós e chegar por aqui, é claro). E, finalmente, quando temos a ilusão que se desenham trilhas escapatórias através da educação que permitiria aos pobres ‘depassarem’ o mecanismo alienador e regeitador, tudo se repete porque o próprio sistema cria o diplomado-analafabeto-iletrado, justificável a luz do falacioso argumento do português não ser a lingua-mãe, contornando o objecto para o ludibriar e rejeitar a partir de outro ângulo.

(..)

Sempre que puder virei aqui ver essa gente que, independentemente dos profundos laços afectivos  e de sangue que me prendem a eles, carregam consigo a grandiosa mensagem que ninguém vê, que ninguem ouve. Essa mensagem são eles mesmos. Construíram uma existência HUMANA do nada, da pedra-bruta (isto não é uma metáfora) quando nenhuma condição era favorável e nenhum meio existia, nem natural nem artificial. Fizeram aquilo que os verdadeiros homens fazem. Infelizmente esses estão em extinção. A maioria já vai poética e serenamente em direcção ao pôr-do-sol. Quiçá nossos filhos resgatem essa ambição sartreana: ‘nascer pessoa e construir-se homem, por opção, a partir da ética, única matéria-prima plausível para essa construção”. Para isso terão que nos negar a nós e seguir o exemplo de seus avós.

Furnas, 6 de Fevereiro de 2011.
Olavo da Luz
Terapeuta Ocupacional
Pós-graduando em Cinema e Audiovisuais

O PACTO CIVILIZATÓRIO




"...se, então, se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objecto sexual; se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença-, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida! É verdade que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os outros têm exactamente o mesmo desejo que eu (...). Assim, na realidade, só uma única pessoa poderia se tornar irrestritamente feliz(...)."
Sigmund Freud em 'O futuro de uma ilusão'

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Veredas da Poesia

CONVITE


vamos incensar a alma
abrir as janelas dos olhos
deixar o sol entrar

botar o bloco na rua
tomar banho de chuva
com a vida deitar e rolar

usar todos os sentidos
só não faz sentido
deixar a vida passar

Autor: Celestino Neto