quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

AS PERIFERIAS DA VIDA



Escrevi este texto há cerca de três semanas atrás. Depois desisti dele. Porém ,relendo-o resolvi publica-lo a revelia do seu enquadramento no tempo...aí está: 

'A seguir aos cumprimentos habituais ‘tiaAninha’ prossegue habilmente seus arremendos com a fineza imperturbável do alto do pedestal da sua ‘visão’ octogenária. Simpaticamente vai me fazendo as perguntas que a põe a par das notícias dos ‘meninos’(entende-se família ausente). A sala e o resto da casa são o retrato fiel de um quatotidiano estetizado, resultante de uma praxis que opera  principios morais seculares introjectados e reiterados diariamente. ‘Limpinha’ diria um visitante de Santiago ou de São Vicente. O lençol impecavelmente esticado do divã exibe sobre o fundo claro um padrão repetitivo de círculos a um tempo colorido, discreto e lúdico. Nas quatro paredes, dispostas de forma ordeira, quase geométrica: impassíveis bonecas, posters de santos, duas bandeiras do clube de futebol New Castle e plantas trepadeiras que se esgueiram a pardir de decilitros de água depositados em lâmpadas recicladas. A estante exibe retratos e estatuetas de santos sobre uma renda de um branco-titânio impregnado pela passagem  vagarosa do tempo. A despeito da forte ventania lá fora e da imposição de um dia cinzento pela bruma seca tem-se a fresca sensação de um dia límpido e calmo.

Djô, o filho único, traja o macacão e sorriso habituais, que se diria serem a sua própria pele. Discorre sobre as recentes chuvas, sobre a ventania que levara consigo as flores dos feijões, sobre a proximidade da colheita da cana de açúcar  e, naturalmente, sobre a ‘votação’, afinal hoje é 6 de Fevereiro. O assunto não merece o entusiasmo do passado e aparece como uma espécie de brisa resultante da cauda de um ignorado furacão que passasse ao longe. Aliás, só o aborda para esclarecer que nunca votou e que não o pretende fazer no futuro porque não acredita que faça alguma diferença. Quanto mais não seja - diz ele- que  “a partir da segunda-feira quando passarem por nós na ribeira a única coisa  que nos darão é a fmaça” (entende-se o pó que se levanta com a passagem dos carros na estrada de terra batida), que “muitos desaparecerão em direcção à Praia (capital) para só voltarem daqui a  quatro anos”, que “ a simpatia com que hoje nos estendem a mão amanhã se transformará em indiferença porque nem um bom dia nos darão”.  A mim que me limito ao deleite do prazer indescritível da companhia da minha gente, para além da minha condição de agnóstico e de homem de parcas paixões que se circunscrevem no interstício do meu narcisismo, não entro no mérito do assunto mormente porque não carrego essas concepções falso-moralistas que impõe ‘deveres’ ou que surrupia direitos (não quero e esse é o meu dever e, consequentemente, continuo a usufruir plenamente de todos os meus direitos, principalmente, porque esses  precedem o  próprio ‘direito’ como dogma). Escusado será dizer que ‘tiaAninha’ vai as urnas e cumpre com seu dever a laia de quem vai a missa. Eu e Djô ficamos por aqui.

A imagem dos bêbados de aspecto miserável carregando desajeitadamente aquelas bandeiras enormes e das meninas pobres nas rotundas cumprindo uma espécie ‘dever’, das poucas imagens que vi da campanha eleitoral, porque por opção muito consciente e livre fechei os olhos e tapei os ouvidos, dizia, aquelas imagens não me saem da maldita memória. Esses 'objectos' continuarão vergonhosamente pobres nos próximos quatro ou quarenta anos, independentemente de quem vença as eleições, porque fazem parte da periferia da periferia (repetição propositado). Afinal, encarnamos esse estatuto com toda a leveza e alienação que nos são característicos, enquanto intelectuais e meia dúzia de políticos terceiromundista e de outros PDM’s vão desenhando discursos e engenhocas para negar esse maldito desígnio a favor dos povos e dos pobres. 

Aos olhos dos amigos que conhecem minhas ideias sou um utópico radical. Não aceito a pobreza para a qual a maioria dos cabo-verdianos vai sendo empurrada ano após ano, década após década. Não a considero um ‘fenómeno natural’ muito menos consequência da ausência de recursos naturais e do nosso ‘nível de desenvolvimento’. É o produto consequente de uma ideologia e de uma práxis bem determinada, de uma minoria igualmente determinada, que empurra, por opção, a maioria deste povo trabalhador para a condição de ‘periféricos’. A solução não está na escolha entre o partido A ou B mas na negação do ‘sistema’ em bloco. A ideologia que sustenta todos os partidos políticos em Cabo Verde para mim é maciça e indistinta e, sobretudo, nos nega como HOMENS. Super valoriza, por um lado, o falso sabichão, criando a aberração do intelectual-licenciado-demagogo-que-tudo-conhece e esparrama o 'loghos' verborreico e patético sobre nossos ouvidos, massageando o seu superego e, 'masturbando' sobre os palcos -em cima dos nossos cabelos crespos- sendo o único capacitado para gerir a 'massa burra' e, por outro, rejeita a ‘phronesis’ Aristotélica do homem comum (conhecimento resultante da experiência engendrada no dia-a-dia) ao mesmo tempo que reafirma e sublinha a sua inferioridade, a sua condição de ‘escravo moderno’ a quem se oferece graciosamente a alforria num enfadonho Domingo, de quatro-em-quatro-anos, através de uma pobre cruz, num miserável naco da papel. (Isso a despeito da Democracia vir a ser o único sistema digno apesar das imperfeições, quando for apreendido por nós e chegar por aqui, é claro). E, finalmente, quando temos a ilusão que se desenham trilhas escapatórias através da educação que permitiria aos pobres ‘depassarem’ o mecanismo alienador e regeitador, tudo se repete porque o próprio sistema cria o diplomado-analafabeto-iletrado, justificável a luz do falacioso argumento do português não ser a lingua-mãe, contornando o objecto para o ludibriar e rejeitar a partir de outro ângulo.

(..)

Sempre que puder virei aqui ver essa gente que, independentemente dos profundos laços afectivos  e de sangue que me prendem a eles, carregam consigo a grandiosa mensagem que ninguém vê, que ninguem ouve. Essa mensagem são eles mesmos. Construíram uma existência HUMANA do nada, da pedra-bruta (isto não é uma metáfora) quando nenhuma condição era favorável e nenhum meio existia, nem natural nem artificial. Fizeram aquilo que os verdadeiros homens fazem. Infelizmente esses estão em extinção. A maioria já vai poética e serenamente em direcção ao pôr-do-sol. Quiçá nossos filhos resgatem essa ambição sartreana: ‘nascer pessoa e construir-se homem, por opção, a partir da ética, única matéria-prima plausível para essa construção”. Para isso terão que nos negar a nós e seguir o exemplo de seus avós.

Furnas, 6 de Fevereiro de 2011.
Olavo da Luz
Terapeuta Ocupacional
Pós-graduando em Cinema e Audiovisuais

3 comentários:

Anónimo disse...

Ainda bem que voltaste atrás com o texto.
Muita verdade.
Nude

Paulino Dias disse...

Alô meu caro,

Mais uma belíssimo texto, pá! Dos que já nos vai acostumando...

Não concordo em absoluto com todos os aspectos da tua exposição (já deves imaginar os pontos exactos da minha discordância ehehehehe...). Havemos de falar sobre o assunto um desses dias entre duas cervejas geladas. Assumo o meu optimismo convicto e à luz deste mesmo optimismo prefiro ver as coisas de um outro ângulo, outras perspectivas. A democracia enquanto processo, o acto de votar, o diálogo (necessário) entre gerações, o fenómeno da pobreza e os moldes de construção de políticas públicas para a minimizar...
De todo o modo, levantas questões muito pertinentes. E, o que é melhor, caramba!, com muita poesia... Que há de haver poesia para lá da cruz na folha de papel reles, pá!

um grande abraço,
Paulino

N.Évora disse...

Ainda bem que resolveste partilha-lo Olavo. Rico o conteudo. aliás, se tens mais coisas engavetadas faça o favor de os partilhar. Gosto de ler teus textos.Fica 1 pedido, talvez 1 incentivo para, sempre que puderes,partilhar mais coisas por essas bandas. os amantes de boas leituras e de boas verdades agradeçam-te. abraço
N.E