terça-feira, 20 de julho de 2010

Estamos em festa...

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Custa-me entrar no sono regenerador com tanto ruído na noite, que deveria ser “calada” mas não é. O que efectivamente estará “calado” há de ser o código de postura e alguns “homens” que deveriam ser autoridades mas não são. Os ruídos oscilam entre uma “música”(?) tão psicótica quanto suas motivações e usos e, o ricochete dos tiros de “boca-bédjo”.

Porque festejamos tanto? Comemoramos? O quê?

Confesso que adoro uma bela festa. Ou, talvez, seja “os efeitos paraíso perdido” do tempo em que as festas eram sinónimos de convivência e de amizade.

Em todos os bairros miseráveis acontecem dezenas de festas mensalmente. Pessoas, principalmente do sexo masculino, queimam suas energias noite dentro ingerindo quantidades absurdas de álcool da pior qualidade, castigam os benditos tímpanos com uma carga intolerável de decibéis, brigam e se agridem por motivos banais. Ou, na melhor das hipóteses prometem carinhosamente facadas e morte sangrenta uns aos outros. Tudo isso a ser pago por todos nós: no tratamento de alcoólatras, de toxicodependentes, de tumores do sistema digestivo, de hipertensos, de ferimentos e deficiências, no cuidado aos órfãos…

A dança que já foi um meio agradável de expressão corporal, de sensualidade e de sedução foi transformada numa simulação banal e psicótica de actos sexuais. Sim porque sexo é sexo, dança é dança, cada um com seu tempo e seu lugar. Me considero uma pessoa de mente aberta. Aceitaria de bom grado casas nocturnas de streep teese, de sexo ao vivo, de prostituição e outros, dentro de regras previamente estabelecidas, que respeitassem as opções e os valores de todos. Porem, o “esfrega esfrega” mecânico que as pessoas se impõem é, em geral, totalmente destituído de qualquer investimento sexual, no verdadeiro sentido do termo, mormente de investimento afectivo, que é o substrato das relações humanas. Em primeiro lugar porque é um padrão de atitudes alienado, em segundo porque bloqueia a convivência descontraída entre as pessoas numa suposta festa e, em terceiro, por ser um modismo leviano, que como todo o modismo fixa padrões de comportamento em pessoas que supostamente pensam e agem de modos diferentes.

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Comemoramos o quê?

A erradicação do “catch body”, da dengue, do desemprego? Comemoramos o exercício da cidadania com a observação mínima dos direitos consagrados na “Declaração Universal dos Direitos do Homem” e na “Constituição de Cabo Verde”?

No ano 2000, ano em que supostamente o mundo deveria acabar, quando abandonei as asas protectoras dos meus familiares e quis ser um “técnico” abandonei estrategicamente, também, as paredes da instituição em que trabalhava. Deixei no “gabinete” a alvura do “jaleco” e me aventurei pelos becos tortuosos dos subúrbios de Mindelo. Senti o bafo pestilento de cubículos, me cozinhei em casas de latão, com pó de todas as cores “pintei” minha bela colecção de sapatos adquiridos a dedo no centro cosmopolita de São Paulo, olhei fixamente nos olhos incrédulos das pessoas que viam em mim mais “um demagogo”, um “doutor”, um “institucionalizador”, vi suas panelas milenares vazias e a cinza antiga nos seus fogões a lenha e no botijão de gás vazio, me ajoelhei sobre meu “blue jeans” e minha camisa branca se deitou no chão infestado para falar com pessoas em buracos improváveis, sob botes, sob chapas de tambor e sobre “cómodos inimagináveis”.

Descobri por casmurrice um outro Cabo Verde que convenientemente não me tinham apresentado. Pois, em nada se parecia com Praça Nova, Pimps(?), High Step(?), Je t’aime…Em nada se parecia com a minha cama macia, com a mesa interminável do café da minha mãe, em nada se parecia com as férias idílicas de verão e com a maciez perfumada e sorridente das meninas que me encantavam.

Dez anos depois faço questão de passear lentamente pelos subúrbios da Praia. Sem missão nenhuma e sem idealismo. Olho para as pessoas, suas casas, suas ruelas e becos, seus contentores transbordantes, olho para seus olhos, olho para a combinação meninos & cachorros & lixo & moscas & miséria. Olho, e é sempre o mesmo espanto. O mesmíssimo espanto. A mesma revolta. É então, que do fundo silencioso dos anos a voz da professora Marina repete para meus olhos atentos (mais por curiosidade que por ofício de estudante): “enquanto numa sociedade houver uma pessoa que seja que não tenha os seus direitos respeitados, nessa mesma sociedade não haverá nem democracia, nem exercício de direitos, para absolutamente ninguém”.

Comemoramos o quê? 
OL

5 comentários:

Paulino Dias disse...

Man,

Deixaste-me assim num estado... meio tonto, sem palavras, vendo os meus próprios ideais serem desconstruídos por cada palavra tua... Este sentimento de que andamos um pouco inebriados sabe-se lá do quê. Hoje, confesso, não queria ter lido este texto. Assim tão cru - mas tão real, porra! -, queria esta tarde chafurdando-me no meu optimismo característico, nos tons belos de poesia que despontam ali pros lados de Cidade Velha quando o céu se põe. E então vens tu desfazer esta minha idílica visão com essas tretas da realidade... compreendes a minha angústia? Mais uma vez, porra, cumpád!!!!

Um abraço, belíssimo texto...

Paulino

Suzano Costa disse...

Excelente post: acutilante, crítico, jucoso, ousado e emancipador É o que me apraz dizer...por agora. Abraços, Suzano

Anónimo disse...

Qualquer pessoa que não entenda de teatro pode fazer um esquema desta peça desde o cenário, passando pela iluminação (que não será grande problema para o encenador, uma vez que no facto real em que é baseada a peça, também não há. Pelo que só é necessária para que não haja um black out, que até seria aceitável tendo em conta uma vez mais o real). Os personagens principais (AEBéBé -agentes especializados em “boca bedjo- porque não passam disso), figurinos onde inclui-se principalmente o Estado, os pais e os vizinhos dos nossos subúrbios que escondem os seus “pupilos protectores” quando a Polícia responde a um chamado. Os adereços (garrafas, pedras, boca bedjo e não só, facas… etc, e…etc,)estes podem ser encontrados facilmente e sem qualquer problema. E para apimentar, um pontche qualquer e de preferência que leve muito do chamado grogue, e dos piores. Quanto ao resto, sem comentário.

O teu amigo tem razão, estas cenas da realidade angustia-nos. Que coisa!
Mais uma vez gostei
Nota 10

Bj
NBP

Trêza disse...

Partilho com o Paulino a sensação de tontura e falta de palavras para uma resposta que, mesmo sem elas, se atreve a chegar até aqui, entrar pelas "Veredas" deste blog a dentro e, ainda sem fôlego, balbuciar a surpresa com que este texto me entrou pelo entendimento a dentro.

O Olavo fez ponte entre duas margens de condição humana opostas, na acção de sair do conforto da sua margem e nadar pelos próprios pulmões até ao outro lado, e esse é um exemplo que os nossos (todos, de cá, daí de tantos lugares) políticos deviam seguir, para depois não via a público descrever uma moeda brilhante e em valorização crescente, da qual não conhecem a outra face.

JB disse...

Excelente post. Abraço. JB