segunda-feira, 5 de julho de 2010

Trilhas da independência...



                                                                         
A independência…

A nossa independência em relação a Portugal e aos portugueses é desnecessária e impossível. Necessária, distante e difícil é a independência no sentido da dignidade humana, com base na cultura, aquela de que falava Cabral quando o silenciaram. Dizia que a primeira é impossível:  primeiro, porque sangue português corre nas nossas artérias. Segundo, porque a nossa história é parte incontornável da história de Portugal. Terceiro, porque se no dia 5 de Julho Portugal abrisse suas fronteiras para os Caboverdianos, no dia 6 centenas de nós estariam radicados no “buraca”. Quarto, porque as grandes negociatas dos nossos “gestores públicos” são feitos com os “irmãos portugueses”. Quinto, porque as verdianinhas em “missão de serviço” fazem as suas compras no “Colombo”. Sexto, porque quem paga as propinas de muitas morenas pobres que frequentam os liceus que pomposamente denominamos de “universidades” não é o estado mas sim os portugueses que estando em Cabo Verde a trabalho precisam de uma segunda esposa…sétimo, blá…blá…blá…e, por último devemos muito dinheiro aos portugueses. Por isso, os nossos filhos e netos que hoje se dedicam aos vídeo games amanhã terão que se esforçar muito para pagar nossos créditos ou, na melhor das hipótese, devolver o país aos que, com todo o mérito, o descobriram …
As trilhas da independência… 

                                         
O retrato com odor a fezes…
(Ilustração: fotocomposição de Dimitry Vorsin)


35 anos após a indecência de Cabo Verde o pano de fundo do retrato do pais é uma capital caótica, sem cores e sem estética, com um saneamento deplorável, mal planificada e esburacada, com graves problemas de energia eléctrica e de água, sem acesso ao consumo de bens culturais, desumanizada,  cheirando a merda para tudo quanto é canto, com uma demarcação clara entre pobres (a maioria) e “ricos” e com o citadinos a acotovelam-se uns aos outros para chegar a lugar nenhum. Tudo isso enquanto esperamos pacientemente por mais uma epidemia de dengue!
O “magestoso” palácio chinês do governo acarinha na sua frente um belo criador de mosquitos, um jardim feio, mal cuidado e com lixo ao relento. Panorama contemplado diariamente pelos nossos ministros, presumo, com muito orgulho.  
A “comunicação social”(?) tem a missão nobre de, através dos seus “flaches”(lapsos) diários misturados com um português muito mal falado, uma enorme desplicência em relação a pesquisa e a concepção ética e tecnicamente adequadas da informação, de manter os “cidadãos” convencidos que uma “caneta bic” é o último modelo de um “avião supersónico” criado no tal palácio chinês por seres que são de natureza divina. E que, como tal, devem ser reverenciados. De preferência com o rosto enfiado na lama e o rabo direccionado para a bruma seca que nos paira. 
Para ajudar a comunicação social a enfiar-nos o sapo goela abaixo o galã inventou a treta das “queridas verdianinhas” a laia de igualdade de género. Isto num país marcadamente machista e com índice vergonhoso e impune de violência contra a mulher, o qual conta com a participação activa de líderes políticos que até se dão ao luxo de agredir suas companheiras na praça pública . Há os que fazem menos feio e vão trocando cargos públicos por favores sexuais, em nome da igualdade de géneros. 
                     
  (Ilustração: fotografia de Hanns Timm)
O gostosão chamou a Jájá para nos educar diariamente com o seu um discurso marketeiro, racionalizado e enfático (característico da psicologia masculina). Como a alienação é a palavra de ordem mal desconfiam que o respeito pela dimensão feminina da vida humana (Jung diria a dimensão anima) tem outras características e conduz necessariamente à outras práticas como sejam: o respeito e a valorização da natureza, da ecologia e da vida, a promoção da cultura e das artes, a sensibilidade,  a valorização da existência humana  no seu sentido lato, o cuidar afectivo e adequado do outro, o respeito pelas diferenças…
As trilhas da independência… 

Amílcar Cabral nasceu na Guiné, cresceu em Cabo Verde…blá…blá…blá…blá… (essa era a missa que nos obrigavam a rezar na escola primária…)

Que Cabral tenha morrido é facto. De morte matada ou de morte morrida tu também caminhas para lá. E olha lá que existencialmente falando muitos caboverdianos já morreram mas não sabem. Porem, para sermos politicamente correctos vamos dizer que vivem sete palmos acima da terra. Que os sucessivos governos e líderes deste país tenham ignorado as ideias de Amílcar Cabral e feito com que dele não restasse nada mais do que a concepção vaga de um ídolo que não chega aos calcanhares do Beto Dias é…muiiiiiito coerente. Afinal, as concepções éticas e políticas de Cabral estão em franca contradição com as práticas dos grandes líderes deste país nos nossos 35 anos de independência (?). Com projectos políticos e de sociedade que rechaçam o homem para o limbo e colocam no centro a tal “lógica do capital”. Lógica essa duplamente ridícula para um país que nada produz e de um estado que vive da espoliação das empresas e dos cidadãos em troca de agressão gratuita.
Tobias Engel, numa reportagem sobre Cabo Verde para o “Le Monde Diplomatique”spacer intitulada “ A segunda morte de Cabral” há poucos anos destilava essas pérolas (cito)http://diplomatique.uol.com.br/acervo.php?id=1128&PHPSESSID=2992afb2cd65c8594faad2ff286459fc:
  • “Os dirigentes de hoje governam o arquipélago como empresários; e dos ideais de Amílcar Cabral restou apenas lembrança…” eu diria que governam o país como comerciantes retalhistas tal qual meu falecido tio “Junzin d’Bia”!
  •  “As primeiras eleições livres, exigidas pelos credores do país em 1991, foram fatais para o PAICV, que teve que dar lugar ao MPD. Este converteu o país à economia de mercado e lançou um programa de privatizações, do qual se aproveitaram principalmente os investidores portugueses (bancos, centrais eléctricas, postos de gasolina...). Portugal recuperava, dessa maneira, o que perdera com a descolonização”.
  • “As restrições à imigração adoptadas pelos países ocidentais põem em risco a sobrevivência de uma população para a qual a emigração sempre foi o recurso para escapar à pobreza e à perseguição”.
  • “A impotência dos dirigentes na defesa dos interesses locais é flagrante no que se refere à pesca: inexistência de cursos de formação para marinheiros e ausência de modernização de estruturas (fábricas de conserva, entrepostos frigoríficos, pesqueiros de alto mar...). Este sector, entretanto, é responsável pela sobrevivência de 15% da população economicamente activa…”
  • “Suprema esquizofrenia: nas proximidades da biblioteca nacional, numa grande praça ainda em obras, ergue-se uma imensa estátua de bronze, de vinte toneladas, de Amílcar Cabral... com os olhos puxados. O presente, oferecido pela China, representa-o vestindo um capote de inverno, como um comandante atravessando as estepes, ou a tundra!”
  • “As autoridades organizam simpósios internacionais, bastante dispendiosos e de uma eficiência duvidosa, sobre direitos humanos e a pobreza. Cabo Verde recebe regularmente elogios e a aprovação das instituições financeiras internacionais”. Diria eu, de novo, “suprema esquizofrenia” utilizar os elogios hipócritas do Banco Mundial e do FMI para demonstrar a performance do país sabendo quem são essas instituições e que interesses defendem…ou é burro que proclama (principalmente quando vem de supostos partidos de esquerda) ou é burro que acredita!
  • “Os livros de Amílcar Cabral saíram das estantes das livrarias, a lentidão e o rancor são perceptíveis…”
  • “Grupos privilegiados, partilhando os mesmos interesses económicos, permeiam os partidos políticos. Uma vez no poder, suas orientações políticas são as mesmas".
  • “…os números oficiais dissimulam as desigualdades sociais gritantes. Os esforços sociais dos primeiros tempos da independência foram varridos pela guinada liberal da década de 90 e pela corrupção”
  • “Cabo Verde tornou-se uma espécie de teatro de um desenvolvimento fictício. O Produto Nacional Bruto (PNB) e a ajuda internacional que o país recebe passam, em primeiro lugar, entre as mãos de uma elite arrogante e auto confiante, enquanto o povo é iludido pelas quimeras de projectos mal elaborados que jamais se irão concretizar”
Os mortos nunca se revoltam excepto no clip do Michael Jackson. Infelizmente, na Cabomorabeza os vivos(?) nunca se “manifestam” quanto mais para se revoltarem...


As trilhas da independência… 

                                         

A alienação, os alienados e os “alienadores”
 (Ilustração: obra Foto de Miroslav Tichy)
A nossa ideologia em termos de concepção do poder político parece se emanar directamente do pensamento mecânico, positivista e ultrapassado de Augusto Comte, isto é, “proclama” de modo absolutamente alienado que “numa sociedade ordenada e progressista o poder político é um direito dos sábios e sua aplicação uma tarefa dos técnicos”. Sábio para nós é qualquer “portador de um canudo de licenciatura” (ainda que vazio) que se auto-intitula intelectual e se dispõe a granjear status e/ou poder económico sem muito esforço, amparado pela lealdade de uma elite alienada e egoísta. Mal sabemos que o poder nas mãos de um indivíduo imaturo, emocionalmente desequilibrado e “ignorante” é uma arma perigosa ou, na melhor das hipóteses, um desperdício de recursos. Há poucos dias li um post do João Brancohttp://cafemargoso.blogspot.com/2010/06/um-cafe-cheio-com-lula.html sobre o Lula da Silva, para mim o maior líder político deste século, que nos mostra claramente, na prática, que a política nada tem a ver com o culto do pseudo intelectualismo que apregoamos por aqui.
É asqueroso colocar sobre um pedestal as chamadas “grandes individualidades” em nome de um falso intelectualismo ou de supostos favores à pátria e reduzir o homem comum a condição de réptil, em nome da sua suposta ignorância e inaptidão.
É vital e urgente protagonizarmos, nos níveis individual e colectivo, uma reflexão profunda, verdadeira e ética que nos permita finalmente dividir o respeito humano e o mérito numa perspectiva radicalmente oposta. Retirar nossos joelhos doridos desse chão nojento em nos encontramos prostrados diante de falsas deidades e erradicar essa maldita ideologia que é utilizada como instrumento de alienação e de dominação. Essa é uma das trilhas da independência…aquela que ainda não começou.

OL

1 comentário:

Paulino Dias disse...

Meu caro,

Magistral. Não concordo com tudo, mas o texto está soberbo! Coloquei um post no meu blog sobre este texto, para divulgação.

Abraço - tens agora a responsabilidade de colocar sempre algujm rebuçado aqui para os que cá vêm espreitar...

Paulino