sexta-feira, 23 de julho de 2010

O homem de olhos pequenos


“Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume”(…)
                                             O Ciúme Caetano Veloso

                                                                                                                              Persistência da Memória
                                                                                                                              Salvador Dali, 1931

Pouco antes das sete da manhã lá estava ele, solitariamente pousado do lado da sua mochila de merenda. Pelo matutino e pela postura digna tinha pose de patrão. Não sei porquê mas via tristeza naquela cena. Adivinhei seus olhos pequenos com um misto de candura e de tristeza. Os meus se encheram de lágrimas…mergulhei fundo nos poucos fragmentos da história que me relatara naquele dia, enquanto arrumávamos os objectos no carro. Falou da morte da sua primeira esposa, de seus filhos, da sua casa clandestina, de como comprou e perdeu o terreno e de como voltou a recuperá-lo com muita luta e com a ajuda de um líder político, um “doutor”. “Imagina, dissera ele, paguei caro. Na altura custou-me cem mil escudos, cem mil escudos! Mas hoje, graças a Deus não pago renda”.

Aos sessenta anos de idade ele se apresentou no meu gabinete para assinar o seu primeiro contrato de trabalho. Trabalhara desde a adolescência, é claro. Deixou para trás a sua ilha do Fogo para habitar uma das muitas encostas da Cidade da Praia. Criou os filhos, adquiriu seu terreno no sector dominante da imobiliária clandestina da cidade, alojou e cuidou da sua família e, pela primeira vez, aos sessenta anos, assinara um contrato formal de trabalho e fora inscrito no sistema de segurança social. O brilho nos seus olhos era de vitória.

Conquista, progressão, realização. Que vitória poderia glorificar um homem que faz uma carreira completa de servente de construção civil ,com um salário obviamente miserável? Perguntava no meu íntimo. Porém, meus pensamentos são meros subprodutos das minhas idiossincrasias e nunca poderão explicar a hipotética alegria que vira na simplicidade do rosto daquele homem. Lembrei-me das mãos calejadas do meu amigo e vizinho de Santo Antão naquele café, no centro de Luxemburgo, e dos seus mil e quinhentos euros mensais, mas tratei logo de afastar para os recônditos da minha maldita mente aquela memória, para salvar meu dia.  Afinal, antes de tudo está lá a DGCI a nossa espera e espreita e, isso é o primordial.

Desculpem-me a expressão incontornável mas, a “grande merda” é que no dia seguinte a paquete veio me informar, cerimoniosamente, que só emitiam o NIF daqueles operários mediante a apresentação, também, dos seus números de telefone e que não necessariamente teria que ser um número fixo, que poderia ser o TM. Perante meu silêncio e indiferença ela fez meia volta e saiu…

Cinco meses depois, a nota que redigi a seguir ainda está na minha gaveta…

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