segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Veredas da Educação



O Primeiro dia de aulas

…um friozinho na barriga indicia a relevância AFECTIVA de um marco na vida: levo o meu filhote ao seu primeiro dia de aulas. Um primeiro que espero ser de uma bem-sucedida  carreira de criatividade, apesar da serialização dos homens promovida pelas escolas. Há cerca de três décadas atrás era eu quem fazia percurso semelhante. Uma das diferenças é que relutantemente eu não queria ir à escola. Meu primo Paulo, da mesma idade que eu, parceiro de muitas batalhas, teve que ir buscar-me em casa durante vários dias seguidos para me convencer. Meu filho vai muito feliz e descontraído.

…no programa matinal da RCV a jornalista que faz a ronda na cidade da Praia reclama de algumas escolas “feias”, com mau aspecto, ao contrário do prometido pelo ministério. O jornalista no estúdio destrói a abordagem da colega alegando que “a campanha de pintura das escolas ainda está em curso e que, certamente, essas escolas irão ser pintadas”. Olho em volta para a movimentação das crianças e adolescentes na rua e, apesar de “UNIFORMIZADAS” e de tudo que conhecemos do nosso sistema de educação tenho esperança que teremos profissionais melhores no futuro. Inclusive para a construção de uma comunicação social verdadeira, que cumpra seu papel…

…tenho as frases do reitor da UNICV e de um analista atravessadas na garganta. Numa reportagem sobre os resultados das “provas de acesso”, particularmente em português e matemática, num canal de televisão, numa apelação inacreditável faziam malabarismos num esforço contorcido de justificação do facto. Um deles apelava para o problema do português não ser a nossa língua de uso corrente como justificação do fracasso.  Outro justificava o sucesso da educação antes da “massificação do ensino” com o argumento de que quem tinha acesso à educação era uma pequena “elite”…ri de tristeza porque sou neto de um “matador de porcos” do interior rural de Santo Antão. Eu e os meus sete irmãos estudamos e sabemos ler e escrever. Usamos esse saber como instrumento de comunicação e de trabalho. Meus pais, octogenários, estudaram até a quarta classe e sabem ler, escrever e raciocinar. A maior parte dos meus amigos e colegas de percurso académico são oriundos de famílias pobres ou muito pobres. Muitos dos meus colegas das tais “elites” ficaram para trás mesmo tendo condições materiais e sociais de longe muito mais vantajosas.     

…o FRACASSO DO ENSINO em Cabo Verde a partir da década de 90 tem de ser assumido por esta sociedade. O rumo tem que ser mudado a 180 graus. Medidas paliativas não servem. Um sistema que fracassa no ensino da língua e da matemática não é válido. O resultado é zero. A linguagem é o suporte do raciocínio e da comunicação. Ela é o diferenciador da espécie humana. Sem a linguagem nos nivelamos com o resto da fauna. Sem raciocínio não há capacidade de trabalho, de produção, de inovação, de criação…se os políticos nos disserem de forma clara que lhes interessa um povo “burro” não estaremos de acordo mas entenderemos seus motivos, que por sinal são muito óbvios…

…misturar a questão da oficialização da língua caboverdiana com o ensino/aprendizagem de outras línguas é uma apelação desnecessária. Brinco muitas vezes com essa história do “alupec” mas sou a favor da oficialização do “crioulo” e acho que já podia ter sido feito. Não sei ler nem escrever em “crioulo” e não tenho motivação para tal. Fui escolarizado em português e estou satisfeito. A língua caboverdiana é bonita, rica, variada e fácil de aprender. Chineses, Noruegueses, Russos, Portugueses…convivem convosco, aprendem a língua com facilidade e com prazer. Mas, por favor não misturem as coisas. Quando falo minha variante de Santo Antão as únicas pessoas que me entendem são as da minha ilha de origem e as de São Vicente. Como todos os santantonenses quando falo com pessoas de outras ilhas sou eu que faço o esforço de adaptação. Mas isso não me incomoda e nunca senti que a minha língua-mãe me impedisse de aprender outras. Nunca tive dificuldades inultrapassáveis na aprendizagem do português, apesar de não ser uma língua fácil. Tenho deficiências sim mas estas resultam unicamente da minha falta de empenho e de cuidado…

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