segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Veredas da Saúde


Pintura de Pablo Picasso

Dez de Outubro é a data escolhida pelas Nações Unidas, através da WFMH (Federação Mundial da Saúde Mental), para chamar a atenção das pessoas ao redor do mundo relativamente as complexas questões da promoção da saúde mental.

O dia se aproxima e irei escrever uma série de “artigos" sobre o tema "Saúde Mental".

Exclusão social dos portadores de distúrbios mentais– um projecto alienado de estigmatização

Para mim Saúde Mental significa a pessoa sentir-se predominantemente com capacidade emocional e física para viver, sem o dispêndio de níveis de energia interna para além do necessário. Viver significa realizar suas tarefas e relacionar consigo e com os outros de forma criativa e motivada. Significa solucionar suas dificuldades sem manter um elevado nível de desorganização emocional, psíquica e física por um longo período de tempo. Para a saúde mental/distúrbio mental concorrem todos os “sectores” da vida da pessoa e da “comunidade” (nos níveis macro ou micro-social) onde se “insere”.

A apropriação das questões da loucura e da doença mental pela medicina e pela psicologia, posteriormente pelas outras ciências que tratam dessas questões, se revelou uma faca de dois gumes. Se por um lado lançou-se luz sobre alguns fenómenos psíquicos, fisiológicos, antropológicos e sociais que concorrem para a saúde/doença mental, por outro lado constitui-se uma avalanche de pré-conceitos (inclusive científicos) e de mecanismos emocionais e sociais que dão corpo a resposta de uma solicitação alienada das sociedades: a etiquetagem, a estigmatização e a marginalização.  Simplificando, a sociedade pede aos profissionais da saúde mental, imbuídos de um poder que lhes é facultado por essa mesma sociedade, que “separem o trigo do joio” indicando de forma clara quem é louco e quem não é.

O problema daí decorrente é que a separação estanque entre loucos e não loucos é impossível. A loucura em geral e os limites daquilo que denominamos de doença mental são definições limitadas no tempo e no espaço. De certo modo não têm existência ontológica. Não têm força de “ser”. A loucura, o desvario, a perda de controlo, a contestação aparentemente absurda fazem parte da existência humana.

A etiquetagem (o diagnóstico) tranquiliza as pessoas e os médicos. Assim, quando “se olha a espelho” pode-se olhar para um louco, porque todos nós de certo modo o somos, mas veremos um indivíduo “equilibrado” na certeza tranquila de que os loucos estão na “Trindade”, na “psiquiatria”, na “Ribeira de Vinha”.

Não nego a existência das doenças mentais. Pelo contrário considero-as as maiores fontes de sofrimento e de angústia. O que temos que negar veementemente são os paradigmas decorrentes não de conhecimentos científicos sólidos mas sim de mecanismos psíquicos de defesa (loucura) que transbordam para o social, se potencializam e retornam para as equipas de saúde mental que rotulam e excluem pessoas, violando seus direitos e empurrando-os de forma inadvertida, mas covarde, para uma carreira de louco, para  a mais trágica das mortes – a morte existencial.    

Todo o profissional de saúde mental tem de fazer uma auto-análise permanente para confrontar-se com seu afectos e suas ideias e entender as motivações das mesmas. Todo o profissional de saúde mental tem que potenciar diariamente a sua própria saúde mental e encurtar o campo da sua loucura para que possa acolher seu cliente com a “assepsia mental” necessária para o ajudar. Mais do que uma questão técnica é uma questão ética. Para além disso ele tem que transmitir à sociedade informações claras e correctas sobre a saúde/doença mental. A melhor delas é devolver a essa sociedade um cliente que viva e conviva como os demais membros, participando activamente no circuito das trocas sociais, isento do estigma da loucura e da improdutividade. 

Com o avanço da ciência no domínio da psicologia profunda, dos psicotrópicos (drogas para tratamento de doenças mentais), do serviço social, da terapia ocupacional, da análise institucional, etc. o tratamento dos distúrbios mentais é, em geral, simples e possível.  A grande maioria dos chamados “doentes mentais” podem viver como todos nós. Podem estudar, trabalhar, criar, participar, amar, constituir família…se não o fazem é porque de forma activa, porém alienada, os impedimos de o fazer. Os impedimos de modo individual e os impedimos como sociedade. Os impedimos de modo esporádico e os impedimos de forma organizada, institucionalizada, através do estado e das suas instituições.

Os doentes crónicos e maltrapilhos pelas ruas dos centros urbanos, os doentes trancados em casa num sofrimento inimaginável, as doentes com recaídas frequentes nos nossos serviços de saúde mental, os doentes “moradores” nas instituições de saúde…todas essas situações são absolutamente desnecessárias, podiam e deveriam ser evitadas.

As reformas necessárias no sector da saúde mental em Cabo Verde não são essencialmente técnicas, não decorrerão prioritariamente da alocação de recursos humanos e materiais. Não. As reformas necessárias decorrerão da desconstrução dos paradigmas alienados e alienantes. Serão impreterivelmente no domínio da ética, da cidadania e dos direitos humanos.  

Olavo da Luz
Terapeuta Ocupacional

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