segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Veredas da Poesia

 
A viagem

Passou delicadamente sobre seu corpo desnudo procurando não a acordar caso dormisse. Ao ler seus movimentos ela cerrou os olhos fingindo-se adormecida. Seus perfumes a mistura com o odor dos seus corpos pairava no cómodo de janelas e porta escancaradas. Movia-se suavemente como uma pluma sustentada por uma leve brisa misturava-se com o odor da natureza janela afora retornava e invadia displicentemente seus alvéolos e sua libido deixando uma réstia de desejo e de torpor no ar.

Pegou a taça com um resto de vinho remexeu no casaco e puxou a cigarrilha e o isqueiro. Lá fora a folhagem baloiçava com suavidade compondo uma sonâmbula melodia que a um tempo o acalentava e o angustiava ao empurrá-lo para uma espécie de reflexão tépida sobre os sentimentos que o nutriam ou que o deveriam nutrir. Reviu sem entusiasmo a sua história e reflectiu se seu instinto de caçador havia de aniquilar mais uma vez a sua motivação inicial. Sentado no parapeito enxotou esse pensamento como a um insecto indesejado. Pensou que haviam de encontrar um meio-termo e haviam de se entender.

Era Novembro em suas almas. Em seus corpos lua nova. Na cama, apoiada na mesma posição que ele a deixou, com uma mão sob a macia face direita e a outra sobre o sexo desnudo ela rememorava aquela longa viajem de Tóquio à aquele vale místico da ilha que povoara durante todos aqueles anos de peregrinação pelo mundo suas memórias, a um tempo reais e fantasiosas, das raízes perdidas da sua infância que, não obstante a sua idade, lhe parecia longínqua. Sorriu maliciosamente e pensou: “tanta saliva e, sobretudo, tantas horas de voo para uma tão adiada e fantasiada queca…”. Pensou e adormeceu. O cansaço, o vinho e uma espécie de saciedade a conduziam nua por um florido labirinto que desbocava num enorme precipício de cúmulos-nimbos onde observava a sua própria nudez que decaía de costas com os membros eternamente abandonados numa madrugada estranhamente silenciosa de um sono infantil.

Terminou a garrafa de vinho e ligou o telefone na expectativa de que seus receios não se concretizassem. Uma hora depois, das janelas do Catamarã avistava a baia do Porto Grande, seus contornos nitidamente desenhados pela luz artificial e pelo silêncio da madrugada. A esse tempo a brisa do vale ganhou força por breve instante e fez-se vento como um ignóbil destino. A folha de papel rodopiou na penumbra do quarto sobrevoou o corpo da moça saiu pela janela e pairou esbranquiçada sobre o jardim. Dir-se-ia uma garça na noite. O ventou terminou tão repentinamente como começou. A brancura do papel perdeu seu motor e deixou-se cair em baloiço até atingir o pequeno lago em que repousava temporariamente o regato quase silencioso. Ela puxou o cobertor, mudou de posição e se aconchegou. 

Na sala de espera dos voos domésticos do aeroporto da Praia ele respirava aliviado pela celeridade com que conseguiu resolver tudo aquilo e também por se esquivar daquela algazarra desconfortável da capital. Cansado e faminto o consolava a ideia que ainda chegaria a tempo de um jantar tardio em Chã de Igreja antecedido do seu aperitivo habitual e seguido de um bom vinho, uma boa conversa e uma bela noite de amor… talvez Nice, porque não - pensou. Seus pensamentos foram interrompidos temporariamente pelo ruído dos motores do Airbus que acabara de se descolar. No mesmo avião ela procurava uma posição que lhe permitisse algum conforto na cadeira e pensava com um misto de tristeza e de raiva: “que se dane!”.
OL

Sem comentários: